Wednesday, November 01, 2006

05.

Eduardo voltara ao escritório. Finalmente se conscientizara que tinha de trabalhar. Era tudo um processo. Sempre que começava algo, punha-se disposto, querendo terminar logo. Entretanto, após as primeiras páginas, cansava-se. Inventava desculpas para não poder continuar. No início até que era inconsciente. Com o tempo passou a perceber este seu comportamento. Analisou-se – bancava o psicólogo algumas vezes – tentando encontrar o motivo. Achava que não queria chegar ao fim. Era como se não mais tivesse utilidade, terminar com a estabilidade do conhecido, ter que se aventurar pelo novo. Concluiu que gostava da segurança do conhecido, do antigo. E que, conseqüentemente, tinha certa aversão ao novo. “Um típico histérico.”, dizia. Resolvera, inicialmente, lutar contra esta vontade de auto-sabotagem. Sempre que começava a perder o interesse pelo que estava fazendo, repetia para si “Vá em frente. Não há nada de mais em terminar uma etapa e começar outra.” Isto, quando estava calmo. Quando perdia a paciência, corria para frente do espelho, olhava dentro de seus olhos e ordenava “Pare com isto. Termine o texto. Você não tem tempo a perder...” Respirava fundo, voltava ao escritório, sentava-se e tentava continuar a trabalhar. Com o tempo foi percebendo que não estava adiantando. Uma vez estava tão irritado, que quando deu por si estava discutindo com o espelho. Até que teve a brilhante idéia de parar logo de uma vez quando começasse a se desinteressar por seu trabalho. Assim, enrolava um pouco folheando uma revista, bebendo água ou simplesmente andando de um lado para o outro. Com isso, perdia menos tempo, pois se cansava de ficar a toa e voltava ao trabalho sem aquela incomoda sensação de estar indo contra sua vontade. Era uma maneira de se enganar. “Psicologia reversa”, brincava. Não tinha muita idéia dos conceitos que adorava utilizar para se analisar. Já tinha lido algumas coisas, entretanto não se lembrava de muita coisa e nem sabia se as fontes eram realmente confiáveis. Não se importava. Não queria bancar o intelectual ou algo assim. Simplesmente gostava de usar termos técnicos.... mesmo que não estivesse totalmente correto seu uso.
Voltou ao escritório e pôs a trabalhar. Finalmente conseguira se concentrar. Cláudio dizia que era uma das cenas mais curiosas da humanidade. “Ele começa sério, lendo cada palavra em silêncio, mexendo levemente os lábios enquanto as lia. Sua mão parecia se tornar independente com aquela caneta vermelha nas mãos. Construções mais complexas o levavam a um fórum de discussão consigo mesmo. Soltava a caneta na mesa e suas mãos gesticulavam de forma a tentar construir no ar cada possibilidade ao mesmo tempo em que seu rosto abrigava diversas expressões, cada uma melhor do que a outra... Mas o melhor é quando se depara com algum absurdo escrito... É simplesmente hilário! Ele resmunga tanto que chega a se perder... hahahaha... A todos deveria ser permitido, ao menos uma vez, presenciar esse acontecimento...” Odiava quando Cláudio começava a contar isso a alguém, ou melhor, a André, o único que costumava freqüentar sua casa. Falava que era porque Cláudio gostava de fantasiar demais e aumentar os fatos. Na verdade, o que mais lhe incomodava era que em todas as vezes que teve de presenciar Cláudio contar, e pior, encenar essa história, sempre escutava a mesma versão. Fossem cem vezes, cem vezes teria de escutar e assistir a mesma coisa. E não é que Cláudio estava certo! Nunca admitiria, é claro! Mas sabia que quando se concentrava, preocupava-se somente com sua leitura e nada mais... chegando sim fazer tudo o que Cláudio contava. “Nunca vou admitir....” ficava pensando enquanto assistia a performance dele.
O tempo começou a, finalmente, seguir seu curso. Não que havia parado só para implicá-lo. Na verdade era Eduardo que havia de desligado da existência do mesmo. O ponteiro do relógio trabalhava fervorosamente; as páginas começaram a diminuir; de tempos em tempos gesticulava, como Cláudio gostava de descrever sempre... E assim foi uma boa parte da manhã. Assim ao menos ele achava.... Na verdade, foram cerca de quarenta minutos no máximo. Estava tão empenhado que poderia jurar que estava há horas ali.
Fora interrompido pelo som do interfone. Uma vez, duas vezes, três vezes.... “Cláud...” interrompeu-se ao lembrar que ele havia saído. Era sempre assim. Quando não o atrapalhava com sua presença, o fazia com sua ausência... Ria. Cláudio não tinha culpa alguma, sabia. Era meio que força do hábito sempre culpá-lo já que era ele que movimentava aquela casa. E enquanto isso aquele ruído irritante continuava a preencher o ambiente.... Deixou a caneta de lado, olhou o número de folhas que havia conseguido ler e acabou se surpreendendo. Sentiu-se satisfeito. “Por enquanto está bom...” Guardou as folhas, levantou-se e foi, por fim, atender a porta.