Sunday, November 25, 2007

17.

Eduardo já havia terminado tudo o que tinha de fazer. Ou melhor, quase tudo. Ainda faltava corrigir o arquivo no computador. Mas não conseguida se concentrar mais. Deixou-se imóvel em uma poltrona em que costumava se sentar para ler, ouvido, eventualmente, Cláudio na cozinha. “Pelo cheiro, já deve estar tudo pronto.” imaginava. Se dependesse de Eduardo, não haveria almoço. Não sentia fome. Não sentiria por alguns dias provavelmente... Não queria, contudo, chegar a extremos novamente. Conhecia por completo aquela situação. Suas conseqüências. As reações dos que os cercavam. Se bem que agora havia somente Cláudio. Diretamente ao menos. E ele nunca o deixaria chegar aos extremos: ao notar qualquer mudança, qualquer sinal que pudesse prenunciar algo, Cláudio não sairia do lado de Eduardo; seria sua nova sombra; seria a razão que lhe faltara anteriormente. “Incrível como alguém que mal me conhece, que é pago para conviver comigo se preocupa tanto” admirava-se Eduardo. Havia algo na natureza de Cláudio que o tornava tão diferente dos demais. Pelo menos na percepção de Eduardo, Cláudio era uma daquelas figuras míticas que se encontram somente em lendas antigas sobre a bondade humana.
Eduardo ainda divagava sobre a natureza de Cláudio em meio à diversidade hipócrita com a qual convivera durante os anos quando o próprio atirou-se repentinamente pela porta do escritório, avançando rapidamente em direção de Eduardo, aprisionando-o naquele pequeno espaço coberto por couro. Eduardo nunca havia presenciado comportamento parecido. Não de Cláudio. Nem mesmo nas tantas vezes que conseguira tirá-lo do sério com seus comentários. Algo ocorrera. E logo saberia.
“Que isso! Não te deram educação, não?” tentou ironizar.
“Nada de gracinhas! Quero saber o que aconteceu!” ordenou Cláudio endireitando Eduardo na poltrona.
“Hei! Vamos tirando a mão! Não tem nada aqui para saber! Quem te deu essa liberdade??”
“Pára de bancar o esnobe reservado! Algo aconteceu enquanto estava fora!”
“Claro que aconteceu: a paz voltou a reinar aqui. Pelo menos por algumas horas...” disse Eduardo se levantando, forçando Cláudio a se afastar. Cláudio havia percebi algo no comportamento de Eduardo que buscava a todo custo desviar os rumos daquela conversa. Para Eduardo, era inaceitável que qualquer um o confrontasse daquela forma e, ignorando a própria presença de Cláudio, dirigiu-se sua mesa de trabalho, ligou o computador e sentou-se. Cláudio enfureceu-se. Compreender como Eduardo conseguia agir como se nada houvesse acontecido, como podia ignorar por completo uma situação como aquela, era impossível para alguém como Cláudio. Não que fosse um intrometido ou um curioso. Ou um curioso intrometido. Ou um intrometido curioso. Cláudio realmente se preocupava com Eduardo e se abismava como ele fazia de tudo para afastá-lo.
“Eu já vi o envelope, a foto e o bilhete...” começou a falar em um tom mais moderado, “... e eu também sei de tudo o que já aconteceu. Ou você achou que sua mãe iria me contratar sem me explicar o que eu deveria fazer aqui?!?!”, interrompeu-se, jogando-se na poltrona. “Será que pelo menos uma vez poderíamos parar com esse jogo?” suspirou Cláudio ante a atitude que presenciara.
Eduardo ainda continuava sentando. De costas a Cláudio. Sem conseguir se mover. Podia ver o reflexo de Cláudio, curvado, apoiando os cotovelos nas coxas, segurando o rosto com as duas mãos, esperando por uma resposta. Resposta que Eduardo não conseguira dar. Não ali. Foi a primeira vez que alguém se realmente preocupava com ele. Que se interessava em ajudar no combate com seus os demônios internos. Não sabia como reagir à sinceridade contida no pedido de Eduardo. Pelo reflexo pôde vê-lo se levantar derrotado. Sentiu um de suas mãos em seu ombro. “O almoço está pronto! Vamos antes que ele esfrie ainda mais.” foram as palavras de Cláudio antes de sair decepcionado pela porta.

Saturday, October 13, 2007

16.

12:30. Provavelmente já estariam almoçando se não tivesse se atrasado. O dia estava prometendo imprevistos. Eduardo ainda se encontrava trancado no escritório. Não tivera coragem de ir perturbá-lo uma vez que fosse. Contudo esse isolamento lhe garantiu livre acesso aos demais ambientes e aos seus respectivos móveis e objetos. Isso incluía a sala e um certo envelope. Preferindo ter certeza de que Eduardo não o pegaria bisbilhotando, acabou por se entreter na cozinha. Iria fazer só uma macarronada. Depois descascou algumas batatas, cortou-as e as fritou. Para completar, fez uma salada com algumas verduras e legumes – os preferidos de Eduardo, claro, e espremeu algumas laranjas. Distraiu-se tendo certeza de que o molho estava bem temperado, as batatas crocantes, a salada suculenta e o suco gelado e doce na medida certa. Tudo para agradar Eduardo e afastar o que quer que fosse que houvesse retirado o brilho daqueles olhos.
Agora estava tudo pronto. Iria chamar Eduardo e aproveitaria para tentar descobrir o que se passava. Silenciosamente dirigiu-se a sala. Ao local exato onde avistara o envelope pela primeira vez. Abaixou-se. Não havia remetente que o pudesse ajudá-lo a entender o que se passava. Sentiu-se desanimado. Observou ao seu redor. As almofadas no sofá. As folhas de jornais. “Haveria algo ali capaz de indicar o que se passa??” duvidava. Sentou-se na ponta de uma das almofadas. Teria que se conformar. Provavelmente nunca saberia o que se passou ali enquanto estava fora. Com um leve suspiro, pôs-se a arrumar a bagunça deixada por Eduardo. Pegou o envelope primeiro; o jornal depois. Entre uma folha de jornal e outra viu algo reluzir. Não sabia ao certo o que era. Esticou um dos braços para alcançá-la.
“Olha só a cara de menino...”, disse em voz baixa. “Olha só que safadinho!”, continuou sorrindo, referindo-se a menina com a qual se encontrava abraçado na foto. Estava tão acostumado com a imagem séria, de ar pesado que carregava atualmente que, para Cláudio, era curioso ver Eduardo tão descontraído. Pôs a foto a seu lado e continuou a dobrar folhas de jornais. Levantou-se e as deixou no aparador. Voltou-se novamente à sala. Viu um pedaço de papel caído, perto de onde estava. “Deve ter caído de alguma das folhas do jornal”, pensou ao se aproximar. Estranhou ler apenas “Feliz Aniversário” em um dos lados. Pesou as informações. O envelope, a foto e o bilhete estavam relacionados com o estranho humor de Eduardo. Teria de saber o que se passava. Levantou-se e foi ao seu encontro, deixando o almoço esfriando em cima da mesa da cozinha.

Sunday, October 07, 2007

15.

Fernanda não havia se convencido de que tinha feito a escolha certa. Eduardo sempre fora discreto em relação a sua vida. Mesmo antes de tudo o que acontecera. E ainda se sentia deslocada pelo fato de sua reaproximação ter sido, inicialmente, imposta por seus pais. Não que estivesse sendo falsa com Eduardo. Sempre lhe agradara a sensação de segurança que tinha quando Eduardo estava por perto. Mas tudo ocorrera em uma época não tão apropriada. Não que houvesse época apropriada para uma tentativa de suicídio. Fernanda estava de partida. Iria ao sul, cursar psicologia. Já estava tudo certo. E confiara tacitamente a Anna a missão de acompanhar seu quase-irmão enquanto estivesse fora. Mas tudo ocorrera como ocorrera. Não haveria forma alguma de prever. E não podia voltar. Abandonar tudo...
Sabia que Eduardo teria abandonado tudo por ela. Para cuidar. Proteger. Apoiar. E essa certeza a assombrava. “Ele teria se posto a meu lado.”, repetia constantemente. Foram quatro anos sem se ver. Mas alguns outros até adaptar a sua vida adulta. E, nesse período exato de conflitos e incertezas, que a intimaram a se reaproximar. “Não podemos deixar que passem por isso tudo sem ter alguém próximo o suficiente para confiarem.”, repetia sua mãe incessantemente. Não queriam que ela o tratasse. Não diretamente. Queriam se aproveitar dos seus conhecimentos e de sua proximidade com Eduardo para evitar certas discussões com estranhos.
O empenho maior nessa situação era o de sua mãe. Esta se sentia, de alguma forma, em dívida devido à atitude de sua filha. Nos primeiros meses, sua mãe marcara alguns jantares especiais, após os quais Fernanda se via obrigada a relatar suas impressões a cerca de Eduardo. Não havia muito que fazer. Algumas vezes ao mês se sentava com Eduardo em algum lugar da cidade. Estas situações resultavam em muito pouco além de uma desagradável sensação. Nada era como antes. Eduardo já havia se isolado. E Fernanda não deixava de ter a impressão de que aqueles olhos azuis não haviam perdoado sua ausência durante todos aqueles anos. Fernanda não insistia. Não por não o querer ajudar. Não queria ter informações mais profundas que, depois, em um daqueles jantares macabros, acabasse por compartilhar.
Sua preocupação, contudo, não durou muito. Logo a família de Eduardo perdera o interesse em escutar Fernanda em suas observações mecânicas e superficiais sobre Eduardo. Havia diversos lugares em que precisavam estar e não trocariam nenhuma destas viagens por algumas horas discutindo o filho. Já o haviam categorizado como problemático. E somente os interessava não ter que lidar com outro escândalo.
Fernanda passou, então, a se sentir mais tranqüila com relação a esses encontros. Sim, os encontros continuaram. Gostava de estar com Eduardo. Sentia falta mesmo do silêncio. Aos poucos o mecanicismo foi vencido e uma naturalidade foi atingida, ainda que fosse superficial a interação. Fernanda não iria um milímetro além do que Eduardo a permitia. Passava a maior parte do tempo ouvindo-o comentar algo, ou mesmo observando-o em silêncio. Este ficara um pouco mais falante após começar o convívio com Cláudio. “Qualquer um ficaria...” brincava consigo mesma. Mesmo assim não se sentia pronta. Ou talvez digna.
Como prometera a Cláudio que iria, não poderia voltar a trás a menos que quisesse escutá-lo por algumas horas. Já havia fugido uma vez. E estava disposta a apagar ao máximo esse evento de sua vida; mesmo que fosse começando com um pequeno passo.

Saturday, September 29, 2007

14.

Eduardo ainda não tinha se dado conta de que Cláudio estava de volta. Passara os últimos minutos sentado, imóvel, no canto da sala. Incrível como as pessoas são capazes de certos atos. Qual o objetivo de se evocar certos acontecimentos. Anos já haviam se passado. A culpa que sentia não. Apesar de não mais flutuar em seu consciente, ainda estava lá, corroendo-o a cada segundo. Tornara-se imune à dor; a seus efeitos, não. Eduardo realmente acreditava que tinha se tornado forte, forte o suficiente para não mais ser atingido por nada. Preparou-se com tamanho afinco: isolou-se por um muro tão alto e espesso quanto possível. Só não esperava, após tanto esforço, que este caísse por si mesmo: esquecera de se fortalecer; confiou apenas em seu muro...
Agora via isto claramente. Enxergava-se pelo que realmente era: uma pessoa como outra qualquer, vulnerável como todas o são! E isso o horrorizava. Não queria mais ser aquele de anos atrás. Queria ser outro! Não queria mais ser humano... Apesar de, inconscientemente, saber da grande probabilidade de fracasso, Eduardo realmente acreditava que conseguiria eliminar algo inerente a sua natureza! Escondera-se por um bom tempo e planejava continuar agindo desta mesma forma até que finalmente morresse... Mas, agora, encontrava-se perdido. Tudo o que havia construído para evitar esse momento fora em vão. Não sabia o que fazer. Mais uma vez....
Notou, então, um movimento ao seu redor. Era Cláudio a poucos passos de onde estava. “Quando mesmo que ele chegou?” Revirou sua mente sem êxito. Ao perceber que Eduardo o observara, Cláudio passou a mexer nisso e naquilo, em coisas sem importância na esperança de Eduardo nem o notar. Mal sabia Cláudio que Eduardo também nutria a mesma esperança. Tudo de que não precisava naquele exato momento era da curiosidade alheia. Era de olhares inquisitivos como os mesmo de antes, buscando respostas e estampando piedade. Precisava de tempo. Tempo para limpar tudo e varrer novamente para algum canto escuro, onde não ousaria entrar novamente.
Eduardo se levantou. Passou por Cláudio, que permaneceu estático. Decidira voltar a suas palavras. Elas sim o ocupariam por muito tempo. Tempo suficiente para se organizar. Era o que esperava.
“Quando o almoço estiver pronto me chama.” foram as únicas palavras que dirigiu a Cláudio, antes de seguir pelo corredor e voltar a se perder em seu trabalho.

Sunday, September 16, 2007

13.

Laura já havia terminado de anotar todos os dados necessários sobre os aspirantes a escritores. Não queria que nada a prendesse hoje. Sairia em seu horário normal. Nenhum minuto além. E iria direto para casa. Estava muito ansiosa. “Como foi deixar o louco do Cláudio me convencer a fazer isso?!?!” remoia a cada instante. Na verdade Cláudio era só alguém para não culpar-se no futuro. Seu maior medo era não pertencer. Sabia como Eduardo era. Corria o risco de ser completamente ignorada por ele. “Uma estranha, não passo de uma estranha” murmurava. Recolheu todos os envelopes e, alguns segundos depois, despejou-os em um canto da mesa de seu chefe.
Voltou a sua cadeira. E ali permaneceu, fitando um e outro que passavam, aproveitando aquele momento de calma para ponderar. Retirou de uma das gavetas um pequeno embrulho. Olhou-o fixamente. Escondida dentro do embrulho de cor neutra, enfeitado com um pequeno adesivo da loja onde, mais cedo, estivera, encontrava-se uma bela caneta tinteiro, daquelas que lembravam as usadas por escritores clássicos em suas lutas particulares com as palavras.
Ainda não estava segura o suficiente para entregá-la a Eduardo. Não sabia nada sobre aquele rapaz que via por alguns minutos, algumas vezes ao mês. O pouco que sabia sobre ele era como revisava os manuscritos à mão para depois corrigir o arquivo, se houvesse, no computador. E fazia questão de entregar a copia toda rabiscada. “Em um envelope furado e fechado por um barbante...” sorria. Era tão metódico nesse ponto. Laura se perguntava se Eduardo tinha alguma noção de, a não ser ela, ninguém mais ali apreciava esse pequeno gesto antiquado. “Provavelmente não estava nem um pouco interessado no que os outros achassem! Ele fazia por si...” concluía.
E essa autonomia, esse comportamento único a encantava ainda mais. A seus olhos, Eduardo era como um destes heróis de tragédias clássicas. Independente da época em que foram situados, continuavam a encantar, sendo fortes, mantendo um mistério pela solidão que os rodeia. Tão envoltos por suas trevas pessoais que não conseguiam enxergar aquela pessoa que tanto os observa. Que tanto espera por um olhar. Por uma palavra, a mais simples que fosse. “Ah! Pára de se parecer com uma dessas adolescentes sonhadoras... Você não tem mais idade para isso!!” se repreendia sempre que devaneios como esses tomavam sua mente.
Mas a caneta continuava ali, olhando-a, envolta em papel de embrulho neutro com a mesma etiqueta da loja onde fora comprada. Chegou a arriscar e perguntar a opinião de Cláudio. Era o único que poderia ajudá-la. Quando contou a ele o que pretendia comprar para Eduardo, escutou um discurso interminável. “Vai dar uma caneta para cara pelo qual está caidinha?!?! Isso é presente de amigo... Tem que ser mais ousada. Mostrar interesse, sabe...” e assim Cláudio continuou por horas e horas. Chegou até a contar sobre alguns dos presentes que dera a André quando ainda não namoravam. “Eu o vi e queria ele só pra mim!” repetia “Não ira perder tempo! Depois um mais esperto do que eu aparecia e pronto...” Cláudio só parecia esquecer que Eduardo não era André. Que Eduardo mal notava o mundo ao seu redor. E que, certamente, uma abordagem mais direta, além de não ser seu estilo, resultaria em um total desastre.
A caneta agora lhe parecia mais apropriada que antes. Preferiria que Eduardo a notasse, ao invés de anulá-la por completo. E ser amiga já seria uma grande promoção para quem não era nada na vida dele. Pegou o embrulho novamente. Colocou-o na gaveta, onde esperaria até que fosse embora, no final da tarde. Olhou as horas. Ainda tinha alguns minutos. Levantou-se e foi beber um copo de água e esperar os minutos passarem.

Sunday, September 09, 2007

12.

Não tinha certeza se estava tão atrasado ou não. Preferira não olhar as horas no celular quando desceu do ônibus. Também não sabia se Eduardo notaria algo. Não havia muito que fazer agora... Ao cruzar a porta teria suas respostas. Chegou até a pensar em agir como se não houvesse saído. Provavelmente o encontraria imerso em suas palavras. Não teve tal sorte. Encontrou-o sentado na sala em uma cadeira antiga, que teimava em permanecer por ali, olhando diretamente a porta de entrada. “É melhor nem fazer contato visual” pensou Cláudio, tentando se divertir com a situação em que se encontrava. Somente lhe restava seguir e esperar ser repreendido. Passou pelo pequeno corredor. Chegou à sala. Deixou a mochila no sofá. Foi até a geladeira. Pegou a jarra de água. Observou a mesa – e lembrou que prometera limpá-la ao chegar... Respirou fundo. Brincou com o copo vazio. Depois com o mesmo, cheio. Mexeu nos farelos de pão. “Nada até agora... Provavelmente está esperando eu me esquecer para começar a reclamar sem parar na minha cabeça... Ah! E ele ainda se acha esperto...”
Percebeu que algo estava errado ao voltar à sala após ter limpado a cozinha – e passado quase meia hora acompanhando uma formiga perdida entre os azulejos na parede – e encontrá-lo do mesmo jeito. Sentou-se no sofá e começou a observá-lo. “Algo vai ter que denunciá-lo! Ele não pode ser capaz de esconder totalmente o que quer que seja que esteja acontecendo.” E não precisou de muito tempo para achar uma brecha.
Qualquer pessoa, mesmo que o conhecesse bem, certamente esperaria pela emboscada futura, um ataque certeiro quando menos se esperasse. Mas ninguém o olhava nos olhos. Ninguém olhava mais qualquer pessoa nos olhos, ainda mais se tratando dos olhos de Eduardo. Havia algo naquela imensidão azul que simplesmente desnorteava quem ousava encará-lo! De certa forma ia além da fisiologia, e isso assustava! E foram os olhos de Eduardo que sinalizaram algo. Declaradamente não eram mais os mesmos. Aquele azul que tanto encantava a Cláudio indiscutivelmente não mais representava Eduardo. Não mais por completo, como antes. Na verdade o representava em nada. Ou.... Talvez... Agora sim o demonstrava por completo.
Este era o momento que tanto procurava. E Cláudio iria aproveitá-lo por completo. Levantou-se e foi ziguezagueando pela sala, criando pretextos para avançar, mesmo que aos poucos. Entre uma parada e outra, deparou-se com um envelope perdido entre os jornais e almofadas. Infelizmente não conseguira identificar o remetente. E não se arriscaria a pegá-lo.
“Correspondências...” deixou escapar por entre os dentes, esperando alguma reação. Qualquer reação. Mais uma vez estranhou a inércia de Eduardo. Em qualquer outro dia ele já teria começado seu sermão de como Cláudio era curioso; de como de como ele deveria respeitar a privacidade alheia e pelo resto do dia escutaria a mesma coisa... Mas este silêncio... “Isto deve ser sério mesmo!” ecoava em sua mente.
Cláudio não tinha idéia de como administrar essa nova dinâmica.

Wednesday, September 05, 2007

11.
Mais uma vez tentou encontrar Cláudio. E nada. Estava disposto a irritá-lo. Mas isso não era tão importante agora. Se houvesse algum problema quanto às cerejas, André poderia recorrer a essa incomunicabilidade de Cláudio para tentar se defender. Mais uma arma a seu favor, agora e sempre! Não havia, contudo, muito com o que se preocupar. Já havia pedido ao boy para comprar morangos no mercado ali perto. E logo logo estaria tudo certo. Ou quase certo. Pelo menos teria todos os ingredientes. Ainda precisava lembrar de buscar o presente que Cláudio escolhera. Sabia como Eduardo gostava de Machado de Assis e tinha conseguido uma edição antiga de Dom Casmurro, daquelas bem amareladas que fariam qualquer um espirrar por semanas, mas que agradaria em cheio Eduardo.
Ainda sentia-se um pouco incomodado com a atenção que Cláudio dava a Eduardo. Passava uma boa parte de suas horas juntos escutando Cláudio falar sobre “aquele menino de olhos azuis que levava tudo muito a sério”. No início, entendia a vontade de comentar de Cláudio: ele sempre se empolgava com qualquer situação nova e ficava horas falando sobre. Mas com o tempo tudo se tornava rotina e Cláudio mudava seu foco. Com Eduardo tudo fora diferente. A empolgação veio depois. A medida que o fora conhecendo. Pela própria natureza de Eduardo, que não permitia ninguém se aproximar, demorou algumas semanas para Cláudio se encantar com a situação. O problema é que não perdeu o encanto. A rotina nunca chegou e André começou a se preocupar. Ainda mais depois de ter ouvido Cláudio descrever Eduardo. E não foi somente um ou duas vezes... Até hoje ele descreve Eduardo em suas conversas, como se André nunca o tivesse conhecido. E não houve nenhum exagero de Cláudio nas descrições. Uma noite que Cláudio precisou ficar com Eduardo, que ardia em febre, André pôde confirmar cada palavra de Cláudio ao ver aquele jovem dormindo pela fresta da porta. “Se doente era tão belo, imagina quando estava saudável?!?!” comentou depois André um pouco inseguro. Foram meses de ciúmes até que o próprio Eduardo ligou para André. “Estou ligando só pra te assegurar que não tenho nenhum interesse no Cláudio. Nem sei como você agüenta ele!!!” disse rindo. E foi só isso. Cláudio jurou que nunca comentou nada. Era bem provável que Eduardo tenha percebido algo em suas palavras ou em seus gestos nas vezes que se encontraram. Ficou completamente encabulado. Como ele, um homem de trinta e dois anos poderia se sentir ameaçado por um menino como Eduardo. Um menino que nem sequer notava quem estava passado ao seu lado, mesmo se esbarrassem nele.
Após alguns momentos que dividiram, André convenceu-se mesmo de que Cláudio não estava interessado por Eduardo, não da forma que lhe ameaçasse. O que Cláudio tinha por Eduardo era algo mais fraternal, um pouco protetor. E com o passar do tempo teve que admitir: Eduardo era sim muito interessante. Seu jeito isolado, mesmo que melancólico aos olhares dos que o cercavam, lhe conferiam uma aura de mistério, daqueles envolventes. Essa sua conclusão só não o deixou mais inseguro porque tinha certeza de que Eduardo nunca se interessaria por Cláudio. Mas de certa forma deixou Cláudio um pouco preocupado. “Seu safado! Ele é só um menino!!” divertia-se ao lembrar da primeira reação de Cláudio ao escutar tal comentário. Os olhos de Cláudio estampavam não repreensão, mas sim ciúmes, o mesmo que tanto criticara em André e nunca admitira em si. Cláudio passou meses escutando André debochar dele por causa de sua reação. André chegou a contar a Eduardo – que também infernizou Cláudio por um bom tempo, se é que ainda não o faz – depois que passaram a ter um convívio um pouco maior – convívio, pois intimidade com Eduardo era praticamente impossível de se compartilhar.
“Seu André, os morangos já estão na geladeira, lá na cozinha... Precisa de mais alguma coisa?”
“Não Vitor, muito obrigado! Ahh, peça, por favor, para Márcia me lembrar antes de ir embora de pegá-los, ok?”
“Sim senhor. Com licença.”
E assim estava tudo da forma como Cláudio queria. Ou pelo menos logo estaria. André voltou a se concentrar em seu serviço. Deixando tudo mais para depois do expediente. “Mas ele ainda vai ouvir quando conseguir falar com ele...” foi seu último pensamento sobre esse aniversário naquela manhã.

Sunday, April 29, 2007

10.

Eduardo não sabia ao certo quantos minutos se passara. Somente quanto a água começou a esfriar foi que percebeu que já estava na hora de terminar o banho... Ou melhor, de começá-lo, pois o máximo que havia feito até aquele momento se resumia a ficar parcialmente imerso em água, contanto os azulejos na parede e torcendo para que aquelas memórias voltassem a se esconder em algum ponto de sua mente. Não haveria muito mais a fazer agora. “Onde estaria Cláudio??? Sempre some quando se precisa dele...” Eduardo precisava de algo ou alguém por perto para fazer aquilo tudo sumir. Não que sentaria com Cláudio e contaria toda a história, desde o primeiro encontro até o último e suas conseqüências... Pelo menos achava que não... Estava um disperso, confuso. E Cláudio era necessário. Sempre teria algum comentário sobre o-filho-da-amiga-da-vizinha-de-sabe-se-lá-quem ou sobre algum-famoso-qualquer-que-fez-algo-em-algum-lugar-e-alguém-acabou-por-registrar-e-vender-para-algum-programa-ou-site-ou-revista-de-fofocas... Ou sobre o nada mesmo. O importante era que Cláudio o manteria ocupado. Focado em assuntos secundários que tomariam sua mente e logo ocupariam todo o espaço. Mas Cláudio não estava por perto. Ele teria que lidar com isso tudo sozinho. O calo da água o ajudaria a relaxar. Só que o calor acabou... O frio chegou e o despertou. Com um leve suspiro, Eduardo levantou-se e, como alguém com pouca vontade de fazer qualquer coisa a mais, esvaziou a banheira e abriu a ducha. O calor da água aos poucos igualou a temperatura em seu corpo e criou aquele ambiente úmido e abafado no banheiro fechado. Infelizmente nada disso foi suficiente para fazê-lo desligar de tudo novamente. Ficou por alguns minutos sentindo a água escorrer por seu corpo. Tentou fechar os olhos para aproveitar o momento e tentar fugir junto com cada gota que sentia. Lembranças revividas trazem imagens muito nítidas. Ainda não poderia se refugiar em si mesmo... “Não há mais nada a se fazer mesmo...”
Abriu os olhos. Procurou o sabonete e a bucha. Resolvera terminar com aquele banho. Ensaboou-se. Esfregou o mais forte que podia. Talvez pudesse limpar aquelas imagens de seu corpo e afogá-las ralo abaixo. Fechou a ducha. Pegou a toalha. Pô-se a se enxugar em meio ao vapor contido no banheiro fechado. Foi só então que notou que havia se esquecido de pegar roupas limpas. “Ainda bem que Cláudio não estava em casa. Senão iria se divertir ao me ver correndo enrolado na toalha...” divertiu-se. Conseguira brincar um pouco consigo. Um primeiro sinal de que as coisas já estavam começando a voltar ao lugar. Parou em frente ao espelho embaçado. A imagem destorcida parecia a mesma de anos atrás... Mesmo sem foco por causa da umidade acumulada na superfície do espelho, era ainda capaz de enxergar os olhos vermelhos de anos anteriores... As olheiras resultantes de noites não dormidas... O rosto cansado e quase sem vida... Mas não era mais um menino. Bem ou mal havia crescido! Teria que continuar a conviver com aquilo de uma maneira ou de outra. Passou a mão pelo espelho. Certificou-se se a toalha estava bem presa na cintura e foi em busca de uma roupa antes que Cláudio chegasse.

Sunday, March 11, 2007

09.

Insistentemente a mensagem de caixa postal se repetia. “Será que esquecera o telefone em casa?” intrigava-se. “Não.... não vivia sem aquela coisa.” André percebeu que Cláudio simplesmente não estava querendo atender o telefone. Normalmente não se importaria com isso. Afinal, passavam boa parte do tempo juntos e um pouco de distanciamento em algumas horas até ajudava a mantê-los unidos. “Nada sobrevive a 24 horas de contato” costumava repetir Cláudio. A questão é que em poucas horas deveria surgir uma festa de aniversário surpresa. Festa essa idéia de Cláudio. E ele mesmo se colocava indisponível! “Afinal, quem tem que comprar tudo sou eu... O espertinho ficou apenas com a responsabilidade de convidar o pessoal...”
André saíra escondido do escritório para correr na padaria em frente. Precisava encomendar o bolo. Algo que deveria ter feito no dia anterior. Cláudio havia sido bastante específico quanto a esse bolo. “Nada de passas, ameixas, cerejas ou afins... Nem pense em coco ralado também...” Tudo o que André adorava! Mas o bolo não era seu. E Eduardo somente comia, isso quando comia, bolo de chocolate com recheio de morangos e coberto por... mais chocolate! Pelo que conhecia de Eduardo, sabia que essa festa surpresa não seria muito bem aceita... Cláudio teria muita sorte se Eduardo não se trancasse no quarto. Por isso o bolo ter que ser perfeito! Talvez Eduardo se distraísse com ele e não fizesse nada que pudesse deixar Cláudio envergonhado. Esse era o plano.
Deveria mesmo ter encomendado um bolo. Era tudo o que passava por sua cabeça. “Se brincasse, conseguiria que o entregasse lá em casa... Era só pagar e por na geladeira até a hora de ir. Agora não adianta mais ficar confabulando sobre isso. Como não poderia ficar rodando a cidade em busca do bolo perfeito, teria que encontrá-lo ali em frente. Ao entrar, seus olhos procuraram dentre todos os bolos ali expostos, algum que pudesse tirá-lo desse sufoco. Mal conteve o sorriso quando avistou ao canto um exemplar que ia ao encontro dos desejos de Cláudio. Estava salvo! Só parecia um pouco grande para o número de convidados. “Antes sobrar que faltar!” aliviou-se. Ao chegar ao balcão foi que percebera: os pequenos e suculentos pedaços vermelhos dispersos no bolo não eram morangos, mas sim cerejas. E cerejas se encontravam na lista dos terminantemente proibidos. Apreçou-se em perguntar, apontando com o dedo indicador: “Por favor, sabe me informar se aquele bolo ali... Não mais para direita.. Isso! Sabe me informar se o receio também é de cerejas?”. O jovem atendente fez um breve gesto com a mão e foi procurar a resposta. Não parecia, contudo, estar com pressa. Primeiro procurou por algum sinal no aviso colocado perto ao bolo... Só encontrara escrito “chocolate e cerejas”. Olhou para um lado, para outro... Coçou a cabeça.. até que decidiu procurar quem havia feito o bolo e foi em direção ao interior da padaria. André nunca poderia contar mais tarde essa história sem exagerar sobre a lentidão do rapaz. Pudera, aflito como estava, qualquer segundo se tornava uma eternidade. Discretamente foi se aproximando de onde se encontrava o bolo. Parou voltado à porta de entrada. Apesar não haver mais ninguém por lá àquela hora, parecia estar de guarda, protegendo o bolo de qualquer um que por ali pudesse passar. Somente voltou-se ao balcão de novo quando escutou o atendente lhe chamar. “O recheio é de mousse de chocolate.” Parou por um segundo. Apesar de não ser o bolo que Cláudio pedira, ele poderia transformá-lo em algo parecido. Bastava alguns morangos... que gentilmente pediria para o boy da escritório comprar para ele. “Bem, eu vou levá-lo... Pode separá-lo pra mim? Assim que sair do trabalho eu passo aqui...” comunicou André satisfeito. Provavelmente, quando chegasse me casa após a festa, teria que escutar um sermão de Cláudio. Sermão que duraria um bom tempo. Não se importava no momento. Ele conhecia meios de enfraquecê-lo, quando começava com isso... O importante é que pelo menos não havia nada sobre o que Eduardo reclamar. Afinal haveria morangos em meio ao chocolate... Muitos morangos....

Saturday, January 13, 2007

08.

Vozes. Vindas de todos os lugares. Dos mais diversos timbres. Ecoando não tão distintas palavras pelo ar.
“Como se pode fazer algo assim....”
“Mas será que é verdade mesmo?”
“Não quero ouvir nada sobre isso... por favor!”
“Com licença...”
“O senhor poderia ser mais claro?”
“Logo hoje.......”
“Eu quero! Eu quero!!”
Não conseguia se concentrar em nada. Havia tanto ainda.... De certa forma até que estava precisando de um pouco disso. Dessa confusão. Assim não se preocupava. Teria alguns minutos. Deixou o corpo escorrer lentamente pelo banco. Recostou a cabeça. Claro que não era confortável. Incomodava de tempos em tempos. Era o melhor que poderia arrumar ali. Sabia. Seus olhos fixaram-se em algum ponto. Somente esperava não estar tão atrasado como achava que estaria. Não. Não quis saber as horas. Preferiu se dedicar a criar uma nova desculpa. Acidente... Ônibus quebrado.... Qualquer coisa capaz de preencher o silêncio que o aguardava. Sim. Sempre era assim. Eduardo não se preocupava nem um pouco com essas questões. Atrasos acontecem e ele sabe disso. Contudo, se Cláudio lhe dissesse uma hora exata.... Eduardo esperava que esta fosse realmente respeitada. Não havia mais acidentes, ou ônibus quebrado, ou seja lá o que for que Cláudio possa pensar. Nada justificaria esse atraso. O problema era que Eduardo não falava nada. Nada mesmo. Nem uma palavra de reprovação Somente uma vez disse algo. “Sabe que acabo aliando meus horários aos seus....” foi o máximo. Foi na primeira vez que Cláudio se atrasou. Depois nenhuma palavra a mais. E esse silêncio incomodava Cláudio. Na verdade deixava-o louco. Eduardo só olhava para Cláudio e esse olhar era capaz de dizer tudo. Tudo aquilo que nunca diria. Cláudio sempre achou que era proposital. “Só pra me deixar furioso.... Ele sabe que não consigo ficar em silêncio por muito tempo.” queixava-se sempre a André. E não adiantava puxar assunto. Quando o fazia, o silêncio se prolongava por dias.
Custaram-lhe várias horas de silêncio até que desenvolvesse uma forma de se justificar sem que se dirigisse a Eduardo. Imaginou o que Eduardo mais gostava de fazer.... Reclamar é claro! Reclamava de tudo. Até quando não tinha sobre o que reclamar, reclamava. Era um vício. “Se ele pode, eu também posso!” concluiu. E um dia arriscou. Tinha se atrasado devido a uma chuva forte. Ao abrir a porta, já se pôs a reclamar em voz alta. Como se debatesse consigo mesmo o ocorrido. “Que droga de chuva! Isso lá é hora de chover! Nem pude fazer o que queria.....” e assim foi. Reclamou por uns dez minutos sem parar enquanto Eduardo o observava do sofá. Foi para o banheiro se secar. De lá para a cozinha. Voltou ao banheiro.... Sempre reclamando. Não houve nesse dia olhar de reprovação nem qualquer forma de recriminação por parte de Eduardo. Curiosamente foi ele quem interrompeu Cláudio. “Ora, ora.... cadê seu bom humor?” debochou depois de se divertir ao ver Cláudio reclamar. Desde então sempre que se atrasava, Cláudio inventa alguma forma de se fazer de irritado. Por fim, até que achava interessante reclamar sobre o que tinha acontecido. Relaxava-o. “E não é que é bom mesmo....” ria consigo mesmo.
Deixou seus pensamentos de lado ao sentir o celular vibrar em sua mochila. Deveria ser André atrás dele. Era outro que não gostava de esperar. Devia estar ansioso. Afinal agora tudo era por conta dele até a noite. Cláudio pôs a mão em cima da mochila. Chegou a abrir o zíper. Parou. Pensou duas vezes. Não estava com paciência. Fechou o zíper. “Uma hora ele desiste.” ponderou. Voltou os olhos para a rua. Logo estaria de volta a casa de Eduardo. Esperaria até André se cansar do celular e ligar lá. E ainda teria de arquitetar algo para quando chegasse. Nada de silêncios hoje. Era a última coisa de que precisava...