Sunday, March 09, 2008

19.

Eduardo tentava aos poucos se concentrar nas alterações que havia feito naquela manhã. Precisava urgentemente se distrair. Mas sabia que digitá-las não tomaria mais do que trinta minutos do seu tempo. Logo teria o resto da tarde para compartilhar com Cláudio. Não havia ritual algum pré-estipulado que os obrigasse a interagir. Longe disso. Avançavam-se as horas e cada um as preenchia da melhor forma possível. Cláudio cumpria suas funções e passava o resto da tarde entre um programa e outro na televisão e o prazer de ir a cada intervalo comercial contar a Eduardo o que acabara de assistir enquanto este, na maioria das vezes, o fulminava com os olhos ou simplesmente o ignorava.
Agora nem isso era possível. Ignorar Cláudio seria afastara única pessoa que tentou sinceramente se aproximar dele, sem julgamentos. Era tão mais fácil para Eduardo se Cláudio não houvesse revelado que sabia de tudo. Qualquer comentário costumava ser facilmente rebatido com o clichê “Você não sabe nada da minha vida...”, acreditando que estas poucas palavras batidas o fizessem calar. E sempre obtinha esse resultado. Pelo menos era o que pensava. Não se tratava de Cláudio não possuir argumentos para rebater tais palavras; simplesmente respeitava a posição de Eduardo. Respeitava sua necessidade de ficar isolado. De carregar consigo uma culpa imaginária por tudo o que aconteceu. Não entendia. E quando possível soltava um “Pára de carregar o mundo nas costas!”. E Eduardo se valia da suposta ignorância de Cláudio sobre tudo para se permitir seguir vivendo, sobrevivendo da única forma que achava justa, como uma punição por ter sido tão egoísta. Se ao menos não houvesse insistido para que ficassem, até o último momento possível, juntos antes da viagem... Se ao menos tivesse atendido ao pedido de Anna para irem embora mais cedo... Se ao menos tivessem destinado alguns poucos minutos a mais para que Anna pudesse apreciar mais a lua... Mas a queria toda para si. “Teria sido somente três meses...” lembrava-se desde o primeiro minuto ao acordar até o último segundo antes de se deixar vencer pelo sonho. Teria sido somente três meses, que se multiplicaram até formarem uma década. Sem Anna. Por seu egoísmo. E não se permitiria esquecer disso.
E agora Cláudio. Novamente seu egoísmo. Cláudio representava amigo que não tinha. Que um dia fora papel de Fernanda. Somente agora tinha consciência. Nunca perdoara Fernanda. Não se deixara compreender suas atitudes, suas limitações em meio a tudo o que acontecera. Impôs-se uma forma, um padrão a todos em seu redor. E com isso ficou sem seus dois grandes apoios no passado. Talvez fosse hora de se tornar um pouco mais maleável. Permitir-se. Não conseguira se fazer inatingível como pensava. Destinara-se pouco espaço. E haveria sempre uma brecha. Uma fratura na muralha que construíra. Sempre conseguiriam alcançá-lo. Após tantos anos, um simples pedaço de papel o fez perceber: seu isolamento se tornara claustrofóbico, infrutífero. Eduardo compreendera que não atravessaria por uma simples brecha. Nem pelo espaço de um tijolo derrubado. Precisaria romper a distância por completo. Não podia mais ignorar. Seria inconseqüente e perigoso, com resultados desastrosos. Não poderia mais negar. Deveria se permitir. E começaria por Cláudio antes que não pudesse novamente voltar atrás.

Tuesday, January 08, 2008

18.

13:10. Os intervalos para almoço já estavam quase terminando. André já havia ido à lanchonete da esquina e em menos de dez minutos estava de volta à empresa, tentando aproveitar ao máximo o tempo que lhe sobrara para não se atrasar no final da tarde. Laura, como em todo horário de almoço, sentou-se sozinha na praça em frente à editora, em um banco qualquer a sombra de uma árvore qualquer, desta vez se deliciando com a salada que havia preparado na noite anterior e que havia deixado, enquanto não chegava seu intervalo para almoço, dentro da geladeira, na sala de refeições destinada aos funcionários da editora. Fernanda observava pacientemente o vapor que subia lentamente acima da pequena xícara de chá que pedira momentos antes. Aproveitava a quietude da praça para se permitir alguns minutos do mais puro e relaxante nada. E assim, cada um, a sua forma, preenchia os minutos que antecediam o início de mais um período de trabalho antes de se prepararem para a festa surpresa logo à noite.
Eduardo e Cláudio ainda compartilhavam alguns longos minutos a mesa. Não havia muito tempo que se sentaram à mesa, em cantos opostos. A refeição preparada por Cláudio estava um tanto agridoce e constrangedoramente fria, apesar dos vapores ainda se manifestarem em um canto ou outro das panelas. Eduardo fixou os olhos no pouco de comida que havia em seu prato. Evitava ao máximo que seu olhar e o de Cláudio se cruzassem. Não queria um segundo ato. Cláudio o fitava entre um e outro momento. Podia-se até pressupor não haver mais ninguém em toda a casa. “Como pode agir assim? Ignorar tudo o que acontece ao seu redor?” intrigava-se. Cláudio não acreditava que alguém pudesse ser tão inatingível assim. Eduardo mesmo já lhe havia provado que não o era. Ainda havia frestas em sua redoma de proteção, pelas quais incômodos feixes de realidade conseguiam lhe retirar o ar.
“Nada disso! Pode comer mais alguma coisa. A tarde promete ser longa...” disse Cláudio numa tentativa de diluir o peso do ar que os cercava. Mas nem assim conseguiu obter um gesto sequer indicativo de que Eduardo estivesse ciente de sua presença naquele cômodo. E nem teve tempo de uma segunda tentativa. Logo, Eduardo teria se levantado, buscado um pouco de água a poucos centímetros de onde Cláudio se encontrava e voltado ao seu mundo de vocábulos, de regras gramaticais e de tudo mais que tanto apreciava. Sozinho, logo Cláudio concluiria que, assim como a todos os outros, mais um período se anunciava, trazendo mais a ser feito. Uma fração a mais do dia. Um passo que aproximava a noite. Noite esta que abrigaria uma comemoração sobre a qual Cláudio não tinha mais certeza.