Eduardo tentava aos poucos se concentrar nas alterações que havia feito naquela manhã. Precisava urgentemente se distrair. Mas sabia que digitá-las não tomaria mais do que trinta minutos do seu tempo. Logo teria o resto da tarde para compartilhar com Cláudio. Não havia ritual algum pré-estipulado que os obrigasse a interagir. Longe disso. Avançavam-se as horas e cada um as preenchia da melhor forma possível. Cláudio cumpria suas funções e passava o resto da tarde entre um programa e outro na televisão e o prazer de ir a cada intervalo comercial contar a Eduardo o que acabara de assistir enquanto este, na maioria das vezes, o fulminava com os olhos ou simplesmente o ignorava.
Agora nem isso era possível. Ignorar Cláudio seria afastara única pessoa que tentou sinceramente se aproximar dele, sem julgamentos. Era tão mais fácil para Eduardo se Cláudio não houvesse revelado que sabia de tudo. Qualquer comentário costumava ser facilmente rebatido com o clichê “Você não sabe nada da minha vida...”, acreditando que estas poucas palavras batidas o fizessem calar. E sempre obtinha esse resultado. Pelo menos era o que pensava. Não se tratava de Cláudio não possuir argumentos para rebater tais palavras; simplesmente respeitava a posição de Eduardo. Respeitava sua necessidade de ficar isolado. De carregar consigo uma culpa imaginária por tudo o que aconteceu. Não entendia. E quando possível soltava um “Pára de carregar o mundo nas costas!”. E Eduardo se valia da suposta ignorância de Cláudio sobre tudo para se permitir seguir vivendo, sobrevivendo da única forma que achava justa, como uma punição por ter sido tão egoísta. Se ao menos não houvesse insistido para que ficassem, até o último momento possível, juntos antes da viagem... Se ao menos tivesse atendido ao pedido de Anna para irem embora mais cedo... Se ao menos tivessem destinado alguns poucos minutos a mais para que Anna pudesse apreciar mais a lua... Mas a queria toda para si. “Teria sido somente três meses...” lembrava-se desde o primeiro minuto ao acordar até o último segundo antes de se deixar vencer pelo sonho. Teria sido somente três meses, que se multiplicaram até formarem uma década. Sem Anna. Por seu egoísmo. E não se permitiria esquecer disso.
E agora Cláudio. Novamente seu egoísmo. Cláudio representava amigo que não tinha. Que um dia fora papel de Fernanda. Somente agora tinha consciência. Nunca perdoara Fernanda. Não se deixara compreender suas atitudes, suas limitações em meio a tudo o que acontecera. Impôs-se uma forma, um padrão a todos em seu redor. E com isso ficou sem seus dois grandes apoios no passado. Talvez fosse hora de se tornar um pouco mais maleável. Permitir-se. Não conseguira se fazer inatingível como pensava. Destinara-se pouco espaço. E haveria sempre uma brecha. Uma fratura na muralha que construíra. Sempre conseguiriam alcançá-lo. Após tantos anos, um simples pedaço de papel o fez perceber: seu isolamento se tornara claustrofóbico, infrutífero. Eduardo compreendera que não atravessaria por uma simples brecha. Nem pelo espaço de um tijolo derrubado. Precisaria romper a distância por completo. Não podia mais ignorar. Seria inconseqüente e perigoso, com resultados desastrosos. Não poderia mais negar. Deveria se permitir. E começaria por Cláudio antes que não pudesse novamente voltar atrás.