Saturday, October 13, 2007

16.

12:30. Provavelmente já estariam almoçando se não tivesse se atrasado. O dia estava prometendo imprevistos. Eduardo ainda se encontrava trancado no escritório. Não tivera coragem de ir perturbá-lo uma vez que fosse. Contudo esse isolamento lhe garantiu livre acesso aos demais ambientes e aos seus respectivos móveis e objetos. Isso incluía a sala e um certo envelope. Preferindo ter certeza de que Eduardo não o pegaria bisbilhotando, acabou por se entreter na cozinha. Iria fazer só uma macarronada. Depois descascou algumas batatas, cortou-as e as fritou. Para completar, fez uma salada com algumas verduras e legumes – os preferidos de Eduardo, claro, e espremeu algumas laranjas. Distraiu-se tendo certeza de que o molho estava bem temperado, as batatas crocantes, a salada suculenta e o suco gelado e doce na medida certa. Tudo para agradar Eduardo e afastar o que quer que fosse que houvesse retirado o brilho daqueles olhos.
Agora estava tudo pronto. Iria chamar Eduardo e aproveitaria para tentar descobrir o que se passava. Silenciosamente dirigiu-se a sala. Ao local exato onde avistara o envelope pela primeira vez. Abaixou-se. Não havia remetente que o pudesse ajudá-lo a entender o que se passava. Sentiu-se desanimado. Observou ao seu redor. As almofadas no sofá. As folhas de jornais. “Haveria algo ali capaz de indicar o que se passa??” duvidava. Sentou-se na ponta de uma das almofadas. Teria que se conformar. Provavelmente nunca saberia o que se passou ali enquanto estava fora. Com um leve suspiro, pôs-se a arrumar a bagunça deixada por Eduardo. Pegou o envelope primeiro; o jornal depois. Entre uma folha de jornal e outra viu algo reluzir. Não sabia ao certo o que era. Esticou um dos braços para alcançá-la.
“Olha só a cara de menino...”, disse em voz baixa. “Olha só que safadinho!”, continuou sorrindo, referindo-se a menina com a qual se encontrava abraçado na foto. Estava tão acostumado com a imagem séria, de ar pesado que carregava atualmente que, para Cláudio, era curioso ver Eduardo tão descontraído. Pôs a foto a seu lado e continuou a dobrar folhas de jornais. Levantou-se e as deixou no aparador. Voltou-se novamente à sala. Viu um pedaço de papel caído, perto de onde estava. “Deve ter caído de alguma das folhas do jornal”, pensou ao se aproximar. Estranhou ler apenas “Feliz Aniversário” em um dos lados. Pesou as informações. O envelope, a foto e o bilhete estavam relacionados com o estranho humor de Eduardo. Teria de saber o que se passava. Levantou-se e foi ao seu encontro, deixando o almoço esfriando em cima da mesa da cozinha.

Sunday, October 07, 2007

15.

Fernanda não havia se convencido de que tinha feito a escolha certa. Eduardo sempre fora discreto em relação a sua vida. Mesmo antes de tudo o que acontecera. E ainda se sentia deslocada pelo fato de sua reaproximação ter sido, inicialmente, imposta por seus pais. Não que estivesse sendo falsa com Eduardo. Sempre lhe agradara a sensação de segurança que tinha quando Eduardo estava por perto. Mas tudo ocorrera em uma época não tão apropriada. Não que houvesse época apropriada para uma tentativa de suicídio. Fernanda estava de partida. Iria ao sul, cursar psicologia. Já estava tudo certo. E confiara tacitamente a Anna a missão de acompanhar seu quase-irmão enquanto estivesse fora. Mas tudo ocorrera como ocorrera. Não haveria forma alguma de prever. E não podia voltar. Abandonar tudo...
Sabia que Eduardo teria abandonado tudo por ela. Para cuidar. Proteger. Apoiar. E essa certeza a assombrava. “Ele teria se posto a meu lado.”, repetia constantemente. Foram quatro anos sem se ver. Mas alguns outros até adaptar a sua vida adulta. E, nesse período exato de conflitos e incertezas, que a intimaram a se reaproximar. “Não podemos deixar que passem por isso tudo sem ter alguém próximo o suficiente para confiarem.”, repetia sua mãe incessantemente. Não queriam que ela o tratasse. Não diretamente. Queriam se aproveitar dos seus conhecimentos e de sua proximidade com Eduardo para evitar certas discussões com estranhos.
O empenho maior nessa situação era o de sua mãe. Esta se sentia, de alguma forma, em dívida devido à atitude de sua filha. Nos primeiros meses, sua mãe marcara alguns jantares especiais, após os quais Fernanda se via obrigada a relatar suas impressões a cerca de Eduardo. Não havia muito que fazer. Algumas vezes ao mês se sentava com Eduardo em algum lugar da cidade. Estas situações resultavam em muito pouco além de uma desagradável sensação. Nada era como antes. Eduardo já havia se isolado. E Fernanda não deixava de ter a impressão de que aqueles olhos azuis não haviam perdoado sua ausência durante todos aqueles anos. Fernanda não insistia. Não por não o querer ajudar. Não queria ter informações mais profundas que, depois, em um daqueles jantares macabros, acabasse por compartilhar.
Sua preocupação, contudo, não durou muito. Logo a família de Eduardo perdera o interesse em escutar Fernanda em suas observações mecânicas e superficiais sobre Eduardo. Havia diversos lugares em que precisavam estar e não trocariam nenhuma destas viagens por algumas horas discutindo o filho. Já o haviam categorizado como problemático. E somente os interessava não ter que lidar com outro escândalo.
Fernanda passou, então, a se sentir mais tranqüila com relação a esses encontros. Sim, os encontros continuaram. Gostava de estar com Eduardo. Sentia falta mesmo do silêncio. Aos poucos o mecanicismo foi vencido e uma naturalidade foi atingida, ainda que fosse superficial a interação. Fernanda não iria um milímetro além do que Eduardo a permitia. Passava a maior parte do tempo ouvindo-o comentar algo, ou mesmo observando-o em silêncio. Este ficara um pouco mais falante após começar o convívio com Cláudio. “Qualquer um ficaria...” brincava consigo mesma. Mesmo assim não se sentia pronta. Ou talvez digna.
Como prometera a Cláudio que iria, não poderia voltar a trás a menos que quisesse escutá-lo por algumas horas. Já havia fugido uma vez. E estava disposta a apagar ao máximo esse evento de sua vida; mesmo que fosse começando com um pequeno passo.