Saturday, December 16, 2006

07.

Apenas suas correspondências. Fechou o portão. Caminhou em direção a sala, conferindo os remetentes. “Conta. Outra conta. Nossa.... uma conta....” divertia-se. Tudo normal como não haveria de ser. Foi quando notou um envelope azul no meio de tantos brancos. Olhou-o com cuidado. Sem remetente. Só seu endereço. Uma carta anônima? Suspense?? Claro que não. “Mamãe.... quanta originalidade...” sussurrou em tom de deboche. Fechou a porta. Jogou as demais cartas no aparador ao canto, em cima dos jornais antigos. Sentou-se no sofá e pôs-se a brincar com o envelope. Todo ano era a mesma coisa. Desde que completara quinze anos. Um cartão de alguma parte do mundo em um envelope colorido. China, Argentina, Áustria, Polônia, África do Sul.... Tinha todos guardados. E sempre a mesma frase “Felicidades. Mamãe e Papai”. Ficava imaginando se, algum dia, entenderiam que ele conhecia a caligrafia dos dois. “Pelo menos podiam se dar ao trabalho de escreverem eles mesmos....” falava para a sala vazia. “Façam suas apostas.... qual será o país desse ano? Japão? Chile? Camarões?” divertia-se ao rasgar o envelope. De repente parou. Calou-se. Atônito. Não acreditava no que via. Nada de cartão. Somente uma foto e um bilhete: “Feliz Aniversário”. “Finalmente mamãe... resolveu escrever....”
Havia tanto tempo que acreditava ter jogado aquela foto fora. Junho de 1997. Outra época.... Eduardo finalmente conseguiu vencer sua timidez e abriu seu coração para Anna. A bela Anna. Morena de olhos verdes.... Sorriso capaz de iluminar qualquer canto escuro de sua alma. Ela simplesmente era perfeita. Perfeita para ele. Já havia se preparado para um não quando surpreendeu-se com um beijo. Seu primeiro. Não sabia como reagir. Tudo parecia ter se encaixado em sua vida. Foram os dois melhores anos. Primeiro amor. Jovem. Inocente. Era dela. Isso com certeza. Vivia perguntando-a o que tinha visto nele. Era todo desajeitado. Tímido. Nem um pouco popular ou algo do tipo. Uma bagunça, literalmente falando. “Você é fofo, como diz o Leo. Tem os olhos mais lindos que já vi. E não falo da cor deles. São inocentes. Puros. Sinceros. Você é capaz de resolver o problema de todo mundo com a maior calma do mundo, mas fica todo perdido quando se trata de você. Não enxerga um palmo a sua frente. Faz a carinha mais engraçada quando tá tentando entender o que se passa. É capaz de discutir horas com qualquer um sobre qualquer assunto, mas levou quase um ano pra falar comigo. Ah.... e não posso esquecer que você fica todo sem graça quando escuta um elogio. E quando tá com vergonha, dá vontade de te levar pra casa.... Bobo eu vi você. E me apaixonei. Só isso!” E era sempre a mesma resposta. Foram tantas vezes que ela teve de repetir até que ele acreditasse.... Sabia que não viveria sem ela. E falava isso sempre. Gritava quando ela não acreditava, para todos escutarem. Passavam todas as horas do dia possíveis juntos. Sem ela, sentia-se sozinho, perdido.
Em seu aniversário de dezessetes anos, Anna finalmente teve o presente que tanto sonhava. Iria passar três meses em Paris. Para ela o dia mais feliz da sua vida, para Eduardo um provável pesadelo. Apesar de saber que se pedisse ela não iria, não poderia fazer isso. Teria que suportar. “Seriam só três meses....” Somente pediu uma coisa em troca. O dia que antecederia a viagem. Passariam todas as horas possíveis juntos. “Pra compensar três meses sem você...” disse com um jeito doce a Anna. Fizeram tudo juntos. Do café da manhã até o fim da festa de despedida que organizou para ela. E como parte do acordo, ele a acompanhou até em casa. Fizeram o trajeto mais longo possível para passarem mais tempo juntos. Observaram as estrelas, a lua.... Seu coração doía a cada minuto que terminava. Não dizia nada, entretanto. Não queria que esse último dia terminasse em lágrimas. A um quarteirão da casa dela, pensou em implorar para que ela não fosse. Não queria ficar sem ela. E talvez devesse tê-lo feito.... A poucos passos do portão principal um carro, um grito, um susto.... Somente isso. Uma eternidade em segundos até reagir. Estava bem. Ele estava. Anna encontrava-se no chão. Eduardo mal conseguiu gritar por ajuda e logo se sentou ao seu lado. Até hoje não entende o que aconteceu. Lembra-se do sangue. Do cheiro. Da textura. Da cor. Daqueles olhos verdes perdendo a luz. Do corpo sem movimento...
Não foi ao enterro. Não comia. Não saia do quarto. Trancou-se. Levaram-lhe o coração. Não sobrou muito. Só uma espera. Interminável....
“Obrigado, mamãe..... Original pelo menos uma vez.....”
Os minutos passavam. Ainda não acreditava. Não questionava muito. Real ou não, estava ali, nas suas mãos. Poderia ser apenas imaginação. Às vezes desprendia-se da realidade. Logo voltaria a si. Incrível como aprendera a controlar seu exterior quando queria. Nenhuma expressão denunciava o que se passava em sua mente. O caos em imagens, pensamentos, sentimentos... passados e presentes.... Comprimidos. Camas de hospitais. Olhares de reprovação e piedade. Isolamento.... Inconscientemente, seu polegar direito deslizava sobre o pulso esquerdo. Aparentemente tentando apagar o passado..... Podia sentir novamente sua pele se abrindo. O sangue pulsando de suas veias, fugindo pelo seu braço. A dor. A esperança.... Lentamente a foto escapava-lhe pelos dedos, apoiando-se sobre suas pernas. Assistindo, impassível a tudo. Imediatamente o polegar esquerdo começou a caminhar sobre o pulso direito. Novamente o passado ressurgia ante seus olhos.... E, finalmente, ambas as mãos caíram, estáticas, sobre a foto. A espera do tempo...
Eduardo quase não respirava. Seus olhos correriam a sala a procura de algo conhecido. Tentavam se entreter com outras imagens. Fugiam do que suas mãos revelaram. Encontrava-se perdido. Sem reação. Outra vez. Só havia uma coisa que poderia fazer naquele instante. Sabia disso. E o fez...

Saturday, December 02, 2006

06.
Não adiantaria correr. Chegaria atrasado mesmo. E certamente Eduardo não estaria nem se lembrando que ele saíra... Estaria tão imerso em seu trabalho que só notaria a sua ausência quando sentisse fome “Na melhor das hipóteses.....” ria consigo. Parou um segundo a frente da entrada do consultório de Fernanda. Olhou as horas no relógio. Respirou. Tirou o relógio do pulso e guardou-o na mochila. Iria mesmo se atrasar....
Entrou e logo escutou um “Querido!!!!!” Era Larissa. Incrível como por causa de Eduardo acabou conhecendo tanta gente... Apesar de não ter a mesma intimidade que possui com Laura, acabou incorporando também Larissa ao seu cotidiano. Ela sempre o encaixava entre um paciente e outro para poder conversar com Fernanda quando se sentia preocupado com Eduardo... “Que que nosso menininho aprontou dessa vez que tá te deixando preocupado?” perguntou enquanto se levantava para abraçá-lo.
“Ela tá ocupada?” perguntou logo, num tom apressado, abraçando-a. “Minuto...” respondeu Larissa sem chegar a sentar. Dirigiu-se ao consultório propriamente dito. Poucos segundos depois, voltou acompanhada e Cláudio, seguindo um gesto de Fernanda, foi ao seu encontro. Ainda fechando a porta desculpou-se “Sei que deveria ter avisado antes, mas acabei me atrasando...” deteve-se ao se deparar com Fernanda sorrindo, observando-o. “Que foi??” perguntou todo encabulado. “Nada...” desconversou. Mal sabia Cláudio o quanto ele era importante para Eduardo. Das poucas vezes que conseguira algumas palavras de Eduardo, não passava mais de cinco minutos sem que este comentasse como Cláudio havia feito isso ou falado aquilo ou como ele simplesmente havia ficado quieto... Provavelmente nem Eduardo tinha consciência de tal importância. Cláudio se tornou o único elo de convívio social de Eduardo. O que já é um avanço para quem não se permite construir qualquer tipo de relacionamento duradouro.
“Fernanda, você vai poder ir hoje?” precipitou-se Cláudio.
“Bem, você sabe que não tenho tanta intimidade assim com Eduardo.....”
“Ou não! Pode muito bem resgatar esse elo.” começou Cláudio. “Sabe como ele não confia nas pessoas e como ele encara o mundo e tudo mais....”
Cláudio tinha realmente um argumento forte. Fernanda havia cansado de tentar explicar que ela e Eduardo não eram mais os mesmo de antes. Fernanda o conhecera criança, ainda mal sabiam falar... Passaram uma boa parte de suas vidas grudados. Fora Eduardo que se apresentara a Fernanda... Bem é o que se pode dizer, afinal bebês não se apresentam! Todos contavam da primeira vez que os dois trocaram alguns olhares...
Seus pais sempre foram vizinhos... Fernanda e Eduardo nasceram quase na mesma época... Somente alguns meses os impediram de dividir ao mesmo tempo a mesma maternidade. Suas famílias viviam juntas, principalmente nos finais de semana. E tudo começou aos sete meses de idade de Eduardo: este fora logo engatinhando e sentando ao lado de Fernanda, quando seus pais o levaram a primeira vez a casa dos vizinhos. Por anos, não mais saiu de seu lado... Ele sempre calado, quieto... Mas sempre por perto. Tão diferente de hoje em dia.... “Você sabe como tudo mudou...” Eduardo a afastara dele. Nada pessoal. Afastara todas as pessoas de si.
Cláudio continuava a olhá-la fixamente a espera de uma resposta. Era nítida sua ansiedade. Havia tanto ainda a ser feito... E contava sinceramente com Fernanda. Ele sabia de tudo o que tinha acontecido. Fernanda fora intimada a se reaproximar de Eduardo. “Afinal numa situação dessas, temos que contar com pessoas de confiança.... Já imaginam que escândalo seria se todos descobrissem sobre Eduardo.... Nenhuma mãe merece um fardo desses....” Fora nessa época que Cláudio entrara na vida de Eduardo: havia sido contratado pra intermediar tudo isso; para que a mãe de Eduardo não precisasse “sofrer tanto” tendo que lidar com esses detalhes da vida do filho. Já era o bastante ter um filho nessa situação.
Ambas as famílias esperavam que essa proximidade passada, existente entre os dois, devolvesse a normalidade a Eduardo. Já Cláudio contava com essa mesma proximidade para convencer Fernanda.
“Ok. Entretanto não espere muito de mim. Não se esqueça de que ele ainda me afasta.”
Cláudio nem precisou responder. Somente concordou em silêncio.
“Às 19:00, ok?” limitou-se a dizer enquanto se levantava.
Fernanda anotou em sua agenda. Não sabia se agia corretamente.... Somente se lembrou daquele menino... e do quanto queria que ele voltasse...
Cláudio apressou-se a se despedir a fim de evitar qualquer arrependimento de Fernanda. Saiu quase correndo do consultório. Acenou para Larissa e se foi. Desistiu de passar no escritório de André. Ligaria para ele confirmando tudo. Nem se preocupou em buscar o relógio dentro da mochila. Tinha certeza de que deveria voltar correndo antes que Eduardo desconfiasse de algo. Logo passaria um ônibus e aproveitaria para descansar um pouco.

Wednesday, November 01, 2006

05.

Eduardo voltara ao escritório. Finalmente se conscientizara que tinha de trabalhar. Era tudo um processo. Sempre que começava algo, punha-se disposto, querendo terminar logo. Entretanto, após as primeiras páginas, cansava-se. Inventava desculpas para não poder continuar. No início até que era inconsciente. Com o tempo passou a perceber este seu comportamento. Analisou-se – bancava o psicólogo algumas vezes – tentando encontrar o motivo. Achava que não queria chegar ao fim. Era como se não mais tivesse utilidade, terminar com a estabilidade do conhecido, ter que se aventurar pelo novo. Concluiu que gostava da segurança do conhecido, do antigo. E que, conseqüentemente, tinha certa aversão ao novo. “Um típico histérico.”, dizia. Resolvera, inicialmente, lutar contra esta vontade de auto-sabotagem. Sempre que começava a perder o interesse pelo que estava fazendo, repetia para si “Vá em frente. Não há nada de mais em terminar uma etapa e começar outra.” Isto, quando estava calmo. Quando perdia a paciência, corria para frente do espelho, olhava dentro de seus olhos e ordenava “Pare com isto. Termine o texto. Você não tem tempo a perder...” Respirava fundo, voltava ao escritório, sentava-se e tentava continuar a trabalhar. Com o tempo foi percebendo que não estava adiantando. Uma vez estava tão irritado, que quando deu por si estava discutindo com o espelho. Até que teve a brilhante idéia de parar logo de uma vez quando começasse a se desinteressar por seu trabalho. Assim, enrolava um pouco folheando uma revista, bebendo água ou simplesmente andando de um lado para o outro. Com isso, perdia menos tempo, pois se cansava de ficar a toa e voltava ao trabalho sem aquela incomoda sensação de estar indo contra sua vontade. Era uma maneira de se enganar. “Psicologia reversa”, brincava. Não tinha muita idéia dos conceitos que adorava utilizar para se analisar. Já tinha lido algumas coisas, entretanto não se lembrava de muita coisa e nem sabia se as fontes eram realmente confiáveis. Não se importava. Não queria bancar o intelectual ou algo assim. Simplesmente gostava de usar termos técnicos.... mesmo que não estivesse totalmente correto seu uso.
Voltou ao escritório e pôs a trabalhar. Finalmente conseguira se concentrar. Cláudio dizia que era uma das cenas mais curiosas da humanidade. “Ele começa sério, lendo cada palavra em silêncio, mexendo levemente os lábios enquanto as lia. Sua mão parecia se tornar independente com aquela caneta vermelha nas mãos. Construções mais complexas o levavam a um fórum de discussão consigo mesmo. Soltava a caneta na mesa e suas mãos gesticulavam de forma a tentar construir no ar cada possibilidade ao mesmo tempo em que seu rosto abrigava diversas expressões, cada uma melhor do que a outra... Mas o melhor é quando se depara com algum absurdo escrito... É simplesmente hilário! Ele resmunga tanto que chega a se perder... hahahaha... A todos deveria ser permitido, ao menos uma vez, presenciar esse acontecimento...” Odiava quando Cláudio começava a contar isso a alguém, ou melhor, a André, o único que costumava freqüentar sua casa. Falava que era porque Cláudio gostava de fantasiar demais e aumentar os fatos. Na verdade, o que mais lhe incomodava era que em todas as vezes que teve de presenciar Cláudio contar, e pior, encenar essa história, sempre escutava a mesma versão. Fossem cem vezes, cem vezes teria de escutar e assistir a mesma coisa. E não é que Cláudio estava certo! Nunca admitiria, é claro! Mas sabia que quando se concentrava, preocupava-se somente com sua leitura e nada mais... chegando sim fazer tudo o que Cláudio contava. “Nunca vou admitir....” ficava pensando enquanto assistia a performance dele.
O tempo começou a, finalmente, seguir seu curso. Não que havia parado só para implicá-lo. Na verdade era Eduardo que havia de desligado da existência do mesmo. O ponteiro do relógio trabalhava fervorosamente; as páginas começaram a diminuir; de tempos em tempos gesticulava, como Cláudio gostava de descrever sempre... E assim foi uma boa parte da manhã. Assim ao menos ele achava.... Na verdade, foram cerca de quarenta minutos no máximo. Estava tão empenhado que poderia jurar que estava há horas ali.
Fora interrompido pelo som do interfone. Uma vez, duas vezes, três vezes.... “Cláud...” interrompeu-se ao lembrar que ele havia saído. Era sempre assim. Quando não o atrapalhava com sua presença, o fazia com sua ausência... Ria. Cláudio não tinha culpa alguma, sabia. Era meio que força do hábito sempre culpá-lo já que era ele que movimentava aquela casa. E enquanto isso aquele ruído irritante continuava a preencher o ambiente.... Deixou a caneta de lado, olhou o número de folhas que havia conseguido ler e acabou se surpreendendo. Sentiu-se satisfeito. “Por enquanto está bom...” Guardou as folhas, levantou-se e foi, por fim, atender a porta.

Sunday, October 15, 2006

04.

Cláudio fora direto para a editora. Era o local mais próximo. E sabia que Laura tinha um horário vago. Ele ainda não entendera muito bem qual era a função dela. Laura se formou em jornalismo mais ou menos na mesma época que Eduardo se formou em letras. Ela era jovem, inteligente e bonita. Tinha as melhores notas de sua turma. Um currículo invejável por qualquer outro aspirante a jornalista. Poderia ter conseguido um emprego em um dos melhores jornais da cidade e preferiu se um tipo de secretaria pessoal de um editorzinho qualquer. Ela basicamente fazia de tudo, até buscava lanchinhos para ele no meio da tarde. O pior é que gostava. Dizia que acabava conhecendo pessoas diferentes a cada momento: aspirantes a escritores, pseudo-intelectuais, socialites que se cansavam de fazer compras e lançavam livros de como se vestir, portar ou até mesmo viajar..., conhecia muito bem o carinha que trabalhava na cafeteria da esquina e a senhora da banca de jornais, além do tintureiro, sapateiro, pedreiro e todos os demais “-eiros” dos quais se chefe necessitasse. “Adoro conhecer pessoas. Cada uma tem uma história, conhece uma faceta da realidade. Isto me fascina!”, afirmava. Queria se escritora e aproveitava para agregar o máximo de personagens e fatos a sua mente. Assim, poderia trabalhá-los e utilizá-los se precisasse. Como uma forma de inspiração.
Cláudio a conheceu por acaso. Eduardo havia passado muito mal uma noite e pediu-o que levasse um texto revisado ao editor. Ao chegar na editora, encontrou-a no elevador. “Estes são os textos que o Eduardo estava revisando?”, perguntou. Cláudio não chegou a se assustar, mas estranhou um pouco. Como ela poderia saber? Provavelmente era o que estava escrito em seu rosto, em seu olhar intrigado e, porque não, incomodado. “Desculpa, é que ele é o único que, ao invés de simplesmente grampear o envelope, fura-o e fecha com barbante.”, explicou sorrindo. “Ele tem dessas...”, comentou Cláudio meio que sorrindo. “Eu acho charmoso. Antiquado, mas charmoso...”, disse com um leve sorriso de canto de rosto. A partir deste dia, começaram a se ver com mais freqüência, não apenas quando Eduardo não podia ir pessoalmente entregar os textos. E acabaram se tornando amigos.
Logo descobriu que ela tinha uma quedinha por Eduardo. Ela tentava esconder. Mas era só prestar atenção no jeito que sempre continha um sorriso quando ouvia ou falava o nome dele. Era fascinante. Às vezes podia-se perceber no ar, principalmente quando ele estava por perto. “Devia ser aqueles olhos azuis e o jeito de menino carente.”, pensava. E Eduardo nunca notara. Era tão resistente ao convívio social que aprendeu a ignorar o que os outros sentiam por ele. E Laura fazia de tudo para que ele não soubesse. Fez Cláudio até jurar que nunca comentaria nada. Pior, que negaria se, algum dia, Eduardo insinuasse algo. Parecia uma adolescente insegura... No fundo, esperava que Eduardo algum dia chegasse e a pegasse nos braços e a beijasse apaixonadamente, como nos livros. É claro que sabia que isto nunca aconteceria, mas quem poderia culpá-la de querer que acontecesse. Todos já quiseram algum dia.... Provavelmente até Cláudio quando mais novo. Só não comentava. Por isso que achava fascinante.
Cláudio foi direto ao encontro de Laura. Ela havia recebido uma série de textos de novos escritores que deveria passar a seu chefe. Sua mesa estava mergulhada em envelopes dos quais, com muita sorte, um ou dois seriam escolhidos pra serem publicados. Aos demais pretensos escritores seria enviada uma carta rejeitando o texto. Cartas estas que teria que escrever, selar e enviar. Por isso, antes que seu chefe chegasse teria que anotar não só o remetente de cada um daqueles envelopes com também o título de cada texto para não se confundir.
“Que isso?”, perguntou Cláudio estranhando a situação. “Pensei que te encontraria tomando café!”
“Você sabe que eu não bebo café e isso aqui é início de mês.”, respondeu ela enquanto tentava abrir espaço naquela bagunça.
“Eu vim rapidinho só pra confirmar se você vai lá hoje à noite.”, disse Cláudio, ao mesmo tempo que tentava contar quantos envelopes haviam naquela mesa.
“Vou sim. Ás 19:00, né?”,
“É. Na minha casa. O André vai tá esperando vocês.”, confirmou, surpreso com o número de envelopes, vinte e dois para ser exato. E já se despediu: “Certo. Tô indo. A gente se fala mais tarde.”
Estava quase no corredor quando escutou o “Tchau!” de Laura. Como se houvesse alguma dúvida se ela iria... Agora tinha que passar no consultório de Fernanda. E ainda ir ao escritório de André para confirmar antes de voltar para a casa de Eduardo. Olhou no relógio. Não tinha mais que quarenta minutos. Resolveu ir a pé. Afinal, eram apenas uns sete quarteirões descendo a rua e iria se atrasar mesmo.

Monday, October 09, 2006

03.

Eduardo olhava aquela pilha de folhas que ainda faltava. Devia ser umas cinqüenta. Não conseguia se concentrar. Não porque tivesse mais o que fazer ou algo lhe atrapalhando. Na verdade o texto era tão ruim que as palavras pareciam se multiplicar somente para ele não terminar uma pagina. “Como cabem tantas palavras numa única página! Credo!”. Além disso, o tempo teimava em não passar. Parecia que o relógio estava mais preguiçoso que de costume. O ponteiro levava pelo menos dois minutos para terminar uma volta. Não lhe parecia justo aquilo. Era tortura. Um complô cósmico para puni-lo por algo que não sabia ao certo o que era. Não aquentava mais. Precisava de um tempo para refrescar a mente. Estava com sede. E com fome. Tinha que ir ao banheiro e não podia deixar aquela sujeira na cozinha, a mesma que largou para que Cláudio limpasse quando chegasse. Mas tudo não passava de desculpas. Tinha de encarar: não queria mais ficar sentado e vendo aquelas palavras brincarem com sua mente. Mas o que iria fazer? Não estava com sede, nem com fome. Fazia nem cinco minutos que havia ido ao banheiro e não, realmente não iria limpar a mesa de café da manhã. Resolveu então perambular pela sala a fim de encontrar algo diferente, nem que fosse ler os obituários dos dias anteriores.
Parou no vão que dava acesso à sala. Pegou-se olhando, observando um pouco de tudo: a almofada azul-clara jogada num canto do sofá branco, a pilha de jornais antigos no aparador ao canto, logo ao lado das violetas roxas – presente de Cláudio, é claro! –, uma foto sua quando criança brincando com seus cachorros, a única foto que tinha em casa. Lembrou-se de quantas vezes Cláudio quis saber o porquê de não haver outras fotos naquela casa. “Não me diga de não existem outras fotos suas ou de alguém que conheça?”, sempre perguntava encabulado. “Se existem, não dou a mínima! Esta é a única que gosto de olhar. O resto não me importa, não tem valor.”, sempre respondia. Era a única resposta que Cláudio não contestava. Certa vez perguntou-o se nunca colocaria outras fotos ali. “Depende, Cláudio. Se julgar importante para mim, sim. Se não, vão todas pro lixo!”. Nunca se esqueceria da cara de espanto dele. “Ainda não estava acostumado com minhas respostas.”, concluiu. E, só para implicá-lo, ainda teve de escutar de Cláudio: “Bom saber. Eu ia te dar uma foto minha, mas agora não vou gastar meu dinheiro, não!”, e saiu com a cara fechada. Eduardo sorria. Demorou cerca de quatro dias para que Cláudio voltasse a tratá-lo como antes. Às vezes ele era tão sensível. Teve que tomar cuidado com o que dizia por alguns meses até que ele se habituasse a seu mal-humor. E, no final, ele acabara se acostumando também com o excessivo bom-humor de Cláudio. “Devo estar pagando os meus pegados! Deve ser karma!”, resmungava de maneira irônica quando queria provocá-lo um pouco. E assim seus dias iam passando.
Balançou a cabeça em sinal de reprovação. Tinha que achar algo para fazer de modo a poder voltar a trabalhar. Revirou a pilha de jornais. Todos antigos. Mas jurava que Cláudio tinha comprado um novo. Ele comprava todo dia. Não precisava nem pedir. Correu a sala com os olhos. Não encontrou nada. Pôs-se a pensar. “Onde ele teria posto o jornal?”. Não encontrou respostas imediatas. Começou a duvidar que Cláudio o tivesse realmente comprado. “É claro que ele não faria isso! É claro que ele não faria isso? É claro que ele não faria isso. É.”. Pensou um pouco mais. Foi quando se lembrou de tê-lo visto nas mãos de Cláudio. “Eu tinha certeza que ele não faria isso!”, gabou-se por um segundo. Correu para o quarto. Devia estar lá em algum lugar. Não conseguia ver muita coisa. As cortinas ainda estavam fechadas. “E depois eu é que sou o pirracento!”, reclamou impaciente. Ao abrir as cortinas, notou que o sol brilhava alto no céu. Ainda não tinha se dado conta daquilo. Virou-se e se deparou com o procurado jornal largado em um canto de sua cama. Pegou-o com uma alegria quase infantil. Finalmente teria como passar o tempo sem se sentir culpado. Afinal estava se informando. Nada mais justo!
Foi para a sala e se jogou no sofá. Era tudo do que ele precisava. Observou por um tempo a primeira página. Era incrível como não havia tantas diferenças das anteriores: os nomes ali descritos eram sim diferentes os fatos nem tanto e, no final, dava tudo na mesma. Irritou-se um pouco. “É sempre a mesma coisa. Dia após dia!”. Havia perdido a vontade de lê-lo. Mas ainda não queria voltar àquelas páginas intermináveis. Ainda não estava pronto. Pôs-se então a folhear o jornal. Acabaria ganhando alguns minutos. Folha após folha. Olhava de relance uma manchete aqui, outra acolá. De vez em quando se prendia a observar uma foto ou outra. E assim foi indo: jogava uma folha para um lado, outra para outro e elas foram se acumulando ao seu redor. Quando seus olhos quase não mais registravam o que passava a sua frente, deparou-se com seu horóscopo do dia. Ali na sua frente. Já que estava ali mesmo começou a ler em voz alta, com se tivesse alguém mais a sua volta, do jeito que as pessoas fazem quando estão tentando desvendar os mistérios contidos naquelas breves linhas: “O alinhamento dos planetas torna o dia turbulento para os nativos de Touro. Surpresas aguardam-o ao final do dia...”
Parou por ali. Não conseguiu continuar até o fim. Qualquer pessoa que escrevesse “aguardam-o” não seria capaz de ditar o futuro. Não o seu. Jogou o resto do jornal no chão. Para que mesmo foi ler aquilo? Não sabia. Provavelmente foi movido pelo desespero de fugir dos erros que o atormentavam no escritório. Mas parece que deles não escaparia tão cedo. “Dia turbulento”, balbuciou com desdém. Realmente. Ter de se deparar com tais monstruosidades durante todo o dia realmente o tornaria turbulento. E além do mais não acreditava em horóscopos. Prever o futuro pelo passado era inaceitável para ele. “Pegue, por exemplo, meu signo. A estrela mais brilhante da constelação de Touro é Aldebaran que se encontra a uma distância de 68 anos-luz da Terra. Não precisa ser nenhum físico ou coisa parecida para saber que leva um bocado de tempo para se percorrer tal distância. Assim, o que um astrólogo previu para os taurinos, hoje, por exemplo, é baseado em um feixe de luz emitido há..., sei lá... muito tempo atrás. E mesmo assim tenho de acreditar que esta luz do passado vai me dizer algo sobre meu futuro? É demais até mesmo pra mim!”, dizia sempre àqueles que se aventuravam em tentar convencê-lo.
Aquele fora o ponto final. Preferiria enfrentar os intermináveis erros que abandonara no escritório. Pelo menos era pago. E no final acabava por se divertir um pouco com os absurdos que encontrava. Publicam qualquer coisa hoje em dia. “Sem conteúdo ou perspectiva artística. Desde que venda, tudo bem!” Mas era seu emprego. O único que lhe ofereceram que pudesse trabalhar em casa. Não queria gente bisbilhotando sua vida enquanto trabalhava e talvez por isso não tivera muitas opções. Exigência sua que seu tio aceitara sem questionar. “Família tinha que servir pra algo...” Levantou-se. Olhou o amontoado de folhas de jornal. “O Cláudio depois pega. Ele vai adorar...”, pensou enquanto se dirigia ao escritório. Achava que pelo menos assim ele teria algo mais com o que se ocupar. E não ficaria a sua volta, fazendo perguntas intermináveis sobre tudo, tirando sua concentração. Poderia até parecer antipático de sua parte. Até que gostava de conversar com Cláudio, ou de ouvi-lo já que quando começava a falar não parava. Mas prezava muito seu trabalho. Era o único que tinha. E, além do mais, teria tempo à tarde para conversarem um pouco.

Sunday, October 08, 2006

02.

Cláudio corria pelas ruas movimentadas. Tinha pouco tempo para fazer tudo o que queria. Sorte que morava ali por perto, a alguns quarteirões. Vivia em uma casa, de esquina. Dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros, um no quarto principal e outro menor, na verdade um lavabo entre a sala e um pequeno escritório que acabou por tornar-se uma biblioteca – precisava de um lugar para guardar seus livros e os de André. Havia ainda um pequeno quintal aos fundos. Morava lá desde que se formou em enfermagem. Havia bastante tempo. Curiosamente nunca se encontrara com Eduardo antes de começar a trabalhar para ele. Estranhava como poucos metros os separaram por anos sem nunca se esbarrarem em algum lugar. Depois de conviver um pouco com ele acabara por entender. Eduardo levava uma vida quase de confinamento. Detestava sair de casa para fazer o que fosse. Sempre que houvesse a opção, comprava por telefone e pedia para entregar. O máximo que se permitia – e era mesmo sua obrigação – era as idas a editora a fim de buscar e levar seu trabalho. Era revisor. Consegui este emprego devido ao seu português impecável. Pode não parecer, mas quando queria falava de uma forma que deixaria Olavo Bilac maravilhado. Era tão raro um jovem que se preocupava tanto com sua língua-mãe. Cláudio o imaginava como sendo um daqueles alunos que falam tudo certo na sala de aula, mas não para se mostrar ou impressionar alguém. Tinha apenas prazer em falar certo. “Deve ter parado devido às implicâncias dos outros”, pensava. Não tinha certeza, e nunca terá. Exceto, claro, se o próprio Eduardo lhe contar esta historia. Como sabia que isto não aconteceria, se permitia imaginar um pouco. O que valia era que conhecia essa língua como ninguém e ponto.
Ao entrar em casa, foi direto ao quarto. Precisava separar uma roupa para usar naquela noite. Ao acender a luz, notou um bilhete pregado na porta do guarda-roupa. Era de André. Ele tinha este costume. Sempre que precisava se lembrar de algo ou avisar Cláudio de alguma coisa, André deixava um bilhete colado na porta do guarda-roupa. “É um lugar que sempre está à vista.”, explicava quando lhe perguntava de onde havia tirado aquela idéia. E não adiantava tentar mudá-lo. Certa vez comprou-lhe uma agenda. André a usara tranqüilamente. Anotara tudo: seus compromissos, suas idéias, o que deveria lembrar de fazer ou pedir para que Cláudio o fizesse. Mas era só. Lembrara de anotar, mas esquecera de olhar o que tinha anotado. Isto quando lembrava de levá-la consigo. Chegou a perdê-la no supermercado e nem se deu conta. Depois disso, desistiu e acabou tendo que se acostumar com aqueles pedaços de papel pregados na porta do guarda-roupa.
“Cláudio,
Não se esqueça de ir ver se tudo está pronto.
Confirma com todo mundo pra estarem aqui por volta das 19:00.
Não esquece, viu!
André”
Sorriu. Como ele sabia que passaria por lá. E se não passasse? Podia ter ligado. Mas não adiantava. Tudo para ele era por bilhetes. Olhou mais uma vez para aquele pedaço de papel. Pensou. Não sabia se deixava um respondendo. “Bilhete resposta!” Era demais. Arrancou-o com a mão esquerda e com a direita abriu a porta ao lado. Era melhor avisá-lo pessoalmente. Pegou uma camisa preta. Abaixou e puxou uma calça também preta. “Clássico, não?”, pensou enquanto colocava a roupa dentro da mochila. Não era bem isso. Faz alguns anos que começou a reparar que somente comprava roupa escura. Independente da cor, deveria ser escura. Até aprendeu que há uma diferença entre preto, chumbo e grafite. Sutil, mas... Ficou um tempo com aquilo na cabeça. Pensou, pensou e pensou de novo. Mas não entendia. Até que um dia descobriu. Tinha tomado aversão às cores claras devido a sua profissão. Só usava branco o dia inteiro. Branco, branco, branco. Aniversário, natal, amigo invisível, só ganhava roupa branca. Até seu ovo de páscoa era de chocolate branco. Inconscientemente havia se tornado um revolucionário. Um rebelde. Naquela idade um rebelde. E por causa do branco! Nem ele acreditava no que havia se tornado. “Mas é a vida, né?”, dizia para se confortar. Talvez alguém pudesse explicar ...Voltou a si. Não tinha tempo para ficar ali parado, repensando mais uma vez aquilo. Pegou tudo, fechou a porta do guarda-roupa. Correu para o quintal. Tinha de por água nas plantas. Eram somente alguns poucos vasinhos que sobreviviam nem Deus sabia como. Passava meses sem se lembrar deles. Quando ia ver, uns tantos já haviam secado; esturricado seria a palavra certa. Outra época aguava tanto que os pobres coitados viviam afogados em água. Entre mortos e feridos se salvaram alguns poucos, três para ser exato: um cacto, que ficava no local onde mais batia sol; um vaso com uma flor, que nem ele sabia o que era e um pé de pimenta que apesar de nunca ter dado umazinha sequer, pelo menos ainda estava verde. Os três sobreviventes, como foram apelidados por André. Ao terminar, fechou a porta e foi direto embora. O resto, outro dia arrumava. Olhou no relógio. Tinha que ir ainda ao centro da cidade, resolver tudo o que faltava e voltar. Isto em exatamente uma hora e meia. “Nem quero pensar nisso.”, suspirou enquanto subia no ônibus.

Friday, October 06, 2006

01.

Aquele era mais um de diversos dias que ainda viriam, pelo menos para Cláudio. Levantara-se já há alguns minutos. Estava na cozinha preparando o café. Esta não era uma de suas funções, mas gostava de cozinhar. Não que soubesse fazer muitas coisas, eram apenas algumas receitas que qualquer pessoa que morasse sozinha saberia fazer. Preparara a mesa: copos, xícaras, pratos... Nada de mais. Eram quase oito horas. Terminou o café, pegou o jornal que deixara na sala e seguiu pelo corredor.
Tudo era muito discreto, esteticamente limpo: cores claras, poucos objetos, basicamente de metais e de formas retas. No começo, estranhara um pouco. Sua casa era um depósito de coisas: poucas combinavam, metais e madeiras conviviam em um mesmo espaço; era um retrato de sua vida, dos lugares em que viveu, das pessoas com que conviveu. “É como se minhas lembranças tivessem saído da minha memória e caído enquanto eu andava”, brincava. Agora até já se acostumara a andar sem tropeçar em algo. “Você tem que conhecer o dono da casa, para depois criticar alguma coisa. Simplesmente moramos onde podemos ser nós mesmos”.
Encontrara a porta entreaberta ao final do corredor. Estava como no dia anterior, e no anterior e no anterior.... Entrou empurrando-a com a ponta do jornal. Jogou-o em um canto da cama e seguiu em frente, em direção às cortinas.
“Bom d...”
“Já estou acordado, Cláudio.”
Parou surpreso, ainda com as mãos nas cortinas. Virou apenas a cabeça, tentando localizar onde Eduardo poderia estar.
“Então tá, ranzinza!”, disse largando as cortinas como estavam. Respirou e com passos largos voltou até a porta, mais precisamente até a poltrona que ficava ao lado da mesma. Parou e ficou olhando para Eduardo.
Era incrível como alguém de sua idade podia ser daquele jeito. Eduardo tinha pouco mais que vinte e seis anos de idade, mas parecia ter muito menos, tanto que Cláudio, que era alguns anos mais velho que ele, demorou a aceitar a idade dele. Não que tivesse de aceitar algo. Era apenas maneira de falar. É que não se conformava. Eduardo tinha feições muito mais jovens que sua idade. Poderia muito bem se passar por um adolescente de talvez dezenove ou até mesmo dezoito anos. “Principalmente por causa de seus olhos. Que isso, você nunca se olhou no espelho não, Eduardo? Você tem um jeito de olhar diferente. Sei lá. É porque estes olhos azuis são tão... seu jeito é tão... Ahh! Sei lá! Dá vontade de te pegar no colo. Hahaha. Você tem tanta sorte....” era o que sempre dizia. Até que um dia se acostumou e parou de querer mudar aquilo.
Apesar de sua aparência tão jovem, Cláudio se surpreendia como Eduardo podia ser tão seco e ríspido em seus atos. Nunca havia encontrado uma pessoa tão distante como aquela. Alguns diziam ser discrição, outros falta de educação mesmo. Não sabia. Às vezes se confundia com aquilo: “Como pode ser tão duro consigo mesmo? Tenta viver a vida um pouco, garoto!” Com o tempo, pôde perceber que Eduardo sempre mantinha uma expressão fechada. Encarava tudo com tamanha severidade que acabara esquecendo que não deveria ter todas as respostas. Ninguém esperava isto dele, talvez só ele mesmo. Mal sorria e, ultimamente, passava horas trancado no quarto, sentado naquela mesma poltrona. Tinha dias que ficava escondido atrás da porta entreaberta, tentando entender o que se passava naquela cabeça. “É jovem demais para carregar o peso do mundo em suas costas...” Mas somente pensava. Não se arriscaria a comentar, ainda não.
“Não vai abrir as cortinas não?”
“Não. Se quiser, você que abra!”, disse com ar de deboche. “O café já está na mesa. Eu se fosse você, andava rápido, antes que esfrie.”
“Não tô com fome!”, retrucou virando a cara a fim de desviar do olhar de reprovação que recebia de Cláudio. “Acho que não vou comer nada não.”
“Não começa, não. Tá muito cedo. E, você ainda tem que tomar seus remédios”. Saiu. E quase no fim do corredor gritou “Feliz aniversário, tá!”
Eduardo ainda ficou alguns minutos, sentado no escuro. Detestava quando Cláudio fazia aquilo. “Ele sabe que eu vou acabar indo...”, pensava. Não poderia fazer nada. Nem se quisesse, Cláudio estava certo e ele sabia disso. Como isso o irritava!
“Não sei porque ainda não te mandei embora?”, perguntou do quarto.
“Já mandou. Umas dez vezes. Ou você não consegue ficar longe de mim por muito tempo, ou não encontrou alguém com a minha formação que quisesse bancar babá de um marmanjo.”, ironizou.
“Na verdade não encontrei alguém tão desesperado por emprego que chegasse a bancar babá de um marmanjo”, retrucou já na porta da cozinha.
Eduardo sentou-se à mesa. Não tinha mesmo fome. Não conseguia comer quando não dormia a noite. Só cheiro do café já estava lhe revirando o estômago. Observava Cláudio comendo e um só pensamento lhe corria a mente: “Como ele consegue comer tanto tão cedo? Parecia que há anos não comia. Era inacreditável que ainda fosse tão magro.” Com muito custo pegou uma fatia de melão. Demorou ainda alguns minutos olhando-a, estático, até que, finalmente, se pôs a comer. Bebeu um pouco do suco que estava em seu copo. Pegou outra fatia de melão. Ao final, apanhou os comprimidos que já haviam sido separados, jogou-os na boca e virou o resto do suco que havia no copo.
“Bom garoto, tomou tudinho. Agora o tio vai ter que sai. Você consegue ficar umas duas horas sozinho sem quebrar a casa?”
“Não enche!”, resmungou. Não gostava muito de brincadeiras. Já havia dito para ele. Não adiantou nada, é claro. Quanto mais falava, reclamava, mais tinha que escutar piadinhas durante o dia todo, sobre qualquer coisa. Chegava a ser insuportável. Até que um dia parou de falar, reclamar. E, em conseqüência, sumiram as piadinhas. Pelo menos na maior parte do dia. Só não podia ficar de mal-humor...
“Eu escutei, viu! Mas tô sem tempo. Depois a gente conversa.”
Cláudio pegou sua mochila na sala e saiu. Da cozinha escutou-se a porta fechando. Finalmente teria algumas horas de paz. Apesar de, no fundo, gostar de ter outra pessoa na casa, precisava de silencio naquele dia. Tinha muito que fazer. Olhou para a louça suja e para a mesa de café da manha ou para o resto dela. “Depois ele limpa. Pelo menos fica ocupado quando voltar.” Levantou-se e foi para o escritório trabalhar.

Este blog não é nada mais que aspirações de um sonhador... São textos e nada mais. Aproveitem!