Sunday, October 15, 2006

04.

Cláudio fora direto para a editora. Era o local mais próximo. E sabia que Laura tinha um horário vago. Ele ainda não entendera muito bem qual era a função dela. Laura se formou em jornalismo mais ou menos na mesma época que Eduardo se formou em letras. Ela era jovem, inteligente e bonita. Tinha as melhores notas de sua turma. Um currículo invejável por qualquer outro aspirante a jornalista. Poderia ter conseguido um emprego em um dos melhores jornais da cidade e preferiu se um tipo de secretaria pessoal de um editorzinho qualquer. Ela basicamente fazia de tudo, até buscava lanchinhos para ele no meio da tarde. O pior é que gostava. Dizia que acabava conhecendo pessoas diferentes a cada momento: aspirantes a escritores, pseudo-intelectuais, socialites que se cansavam de fazer compras e lançavam livros de como se vestir, portar ou até mesmo viajar..., conhecia muito bem o carinha que trabalhava na cafeteria da esquina e a senhora da banca de jornais, além do tintureiro, sapateiro, pedreiro e todos os demais “-eiros” dos quais se chefe necessitasse. “Adoro conhecer pessoas. Cada uma tem uma história, conhece uma faceta da realidade. Isto me fascina!”, afirmava. Queria se escritora e aproveitava para agregar o máximo de personagens e fatos a sua mente. Assim, poderia trabalhá-los e utilizá-los se precisasse. Como uma forma de inspiração.
Cláudio a conheceu por acaso. Eduardo havia passado muito mal uma noite e pediu-o que levasse um texto revisado ao editor. Ao chegar na editora, encontrou-a no elevador. “Estes são os textos que o Eduardo estava revisando?”, perguntou. Cláudio não chegou a se assustar, mas estranhou um pouco. Como ela poderia saber? Provavelmente era o que estava escrito em seu rosto, em seu olhar intrigado e, porque não, incomodado. “Desculpa, é que ele é o único que, ao invés de simplesmente grampear o envelope, fura-o e fecha com barbante.”, explicou sorrindo. “Ele tem dessas...”, comentou Cláudio meio que sorrindo. “Eu acho charmoso. Antiquado, mas charmoso...”, disse com um leve sorriso de canto de rosto. A partir deste dia, começaram a se ver com mais freqüência, não apenas quando Eduardo não podia ir pessoalmente entregar os textos. E acabaram se tornando amigos.
Logo descobriu que ela tinha uma quedinha por Eduardo. Ela tentava esconder. Mas era só prestar atenção no jeito que sempre continha um sorriso quando ouvia ou falava o nome dele. Era fascinante. Às vezes podia-se perceber no ar, principalmente quando ele estava por perto. “Devia ser aqueles olhos azuis e o jeito de menino carente.”, pensava. E Eduardo nunca notara. Era tão resistente ao convívio social que aprendeu a ignorar o que os outros sentiam por ele. E Laura fazia de tudo para que ele não soubesse. Fez Cláudio até jurar que nunca comentaria nada. Pior, que negaria se, algum dia, Eduardo insinuasse algo. Parecia uma adolescente insegura... No fundo, esperava que Eduardo algum dia chegasse e a pegasse nos braços e a beijasse apaixonadamente, como nos livros. É claro que sabia que isto nunca aconteceria, mas quem poderia culpá-la de querer que acontecesse. Todos já quiseram algum dia.... Provavelmente até Cláudio quando mais novo. Só não comentava. Por isso que achava fascinante.
Cláudio foi direto ao encontro de Laura. Ela havia recebido uma série de textos de novos escritores que deveria passar a seu chefe. Sua mesa estava mergulhada em envelopes dos quais, com muita sorte, um ou dois seriam escolhidos pra serem publicados. Aos demais pretensos escritores seria enviada uma carta rejeitando o texto. Cartas estas que teria que escrever, selar e enviar. Por isso, antes que seu chefe chegasse teria que anotar não só o remetente de cada um daqueles envelopes com também o título de cada texto para não se confundir.
“Que isso?”, perguntou Cláudio estranhando a situação. “Pensei que te encontraria tomando café!”
“Você sabe que eu não bebo café e isso aqui é início de mês.”, respondeu ela enquanto tentava abrir espaço naquela bagunça.
“Eu vim rapidinho só pra confirmar se você vai lá hoje à noite.”, disse Cláudio, ao mesmo tempo que tentava contar quantos envelopes haviam naquela mesa.
“Vou sim. Ás 19:00, né?”,
“É. Na minha casa. O André vai tá esperando vocês.”, confirmou, surpreso com o número de envelopes, vinte e dois para ser exato. E já se despediu: “Certo. Tô indo. A gente se fala mais tarde.”
Estava quase no corredor quando escutou o “Tchau!” de Laura. Como se houvesse alguma dúvida se ela iria... Agora tinha que passar no consultório de Fernanda. E ainda ir ao escritório de André para confirmar antes de voltar para a casa de Eduardo. Olhou no relógio. Não tinha mais que quarenta minutos. Resolveu ir a pé. Afinal, eram apenas uns sete quarteirões descendo a rua e iria se atrasar mesmo.

Monday, October 09, 2006

03.

Eduardo olhava aquela pilha de folhas que ainda faltava. Devia ser umas cinqüenta. Não conseguia se concentrar. Não porque tivesse mais o que fazer ou algo lhe atrapalhando. Na verdade o texto era tão ruim que as palavras pareciam se multiplicar somente para ele não terminar uma pagina. “Como cabem tantas palavras numa única página! Credo!”. Além disso, o tempo teimava em não passar. Parecia que o relógio estava mais preguiçoso que de costume. O ponteiro levava pelo menos dois minutos para terminar uma volta. Não lhe parecia justo aquilo. Era tortura. Um complô cósmico para puni-lo por algo que não sabia ao certo o que era. Não aquentava mais. Precisava de um tempo para refrescar a mente. Estava com sede. E com fome. Tinha que ir ao banheiro e não podia deixar aquela sujeira na cozinha, a mesma que largou para que Cláudio limpasse quando chegasse. Mas tudo não passava de desculpas. Tinha de encarar: não queria mais ficar sentado e vendo aquelas palavras brincarem com sua mente. Mas o que iria fazer? Não estava com sede, nem com fome. Fazia nem cinco minutos que havia ido ao banheiro e não, realmente não iria limpar a mesa de café da manhã. Resolveu então perambular pela sala a fim de encontrar algo diferente, nem que fosse ler os obituários dos dias anteriores.
Parou no vão que dava acesso à sala. Pegou-se olhando, observando um pouco de tudo: a almofada azul-clara jogada num canto do sofá branco, a pilha de jornais antigos no aparador ao canto, logo ao lado das violetas roxas – presente de Cláudio, é claro! –, uma foto sua quando criança brincando com seus cachorros, a única foto que tinha em casa. Lembrou-se de quantas vezes Cláudio quis saber o porquê de não haver outras fotos naquela casa. “Não me diga de não existem outras fotos suas ou de alguém que conheça?”, sempre perguntava encabulado. “Se existem, não dou a mínima! Esta é a única que gosto de olhar. O resto não me importa, não tem valor.”, sempre respondia. Era a única resposta que Cláudio não contestava. Certa vez perguntou-o se nunca colocaria outras fotos ali. “Depende, Cláudio. Se julgar importante para mim, sim. Se não, vão todas pro lixo!”. Nunca se esqueceria da cara de espanto dele. “Ainda não estava acostumado com minhas respostas.”, concluiu. E, só para implicá-lo, ainda teve de escutar de Cláudio: “Bom saber. Eu ia te dar uma foto minha, mas agora não vou gastar meu dinheiro, não!”, e saiu com a cara fechada. Eduardo sorria. Demorou cerca de quatro dias para que Cláudio voltasse a tratá-lo como antes. Às vezes ele era tão sensível. Teve que tomar cuidado com o que dizia por alguns meses até que ele se habituasse a seu mal-humor. E, no final, ele acabara se acostumando também com o excessivo bom-humor de Cláudio. “Devo estar pagando os meus pegados! Deve ser karma!”, resmungava de maneira irônica quando queria provocá-lo um pouco. E assim seus dias iam passando.
Balançou a cabeça em sinal de reprovação. Tinha que achar algo para fazer de modo a poder voltar a trabalhar. Revirou a pilha de jornais. Todos antigos. Mas jurava que Cláudio tinha comprado um novo. Ele comprava todo dia. Não precisava nem pedir. Correu a sala com os olhos. Não encontrou nada. Pôs-se a pensar. “Onde ele teria posto o jornal?”. Não encontrou respostas imediatas. Começou a duvidar que Cláudio o tivesse realmente comprado. “É claro que ele não faria isso! É claro que ele não faria isso? É claro que ele não faria isso. É.”. Pensou um pouco mais. Foi quando se lembrou de tê-lo visto nas mãos de Cláudio. “Eu tinha certeza que ele não faria isso!”, gabou-se por um segundo. Correu para o quarto. Devia estar lá em algum lugar. Não conseguia ver muita coisa. As cortinas ainda estavam fechadas. “E depois eu é que sou o pirracento!”, reclamou impaciente. Ao abrir as cortinas, notou que o sol brilhava alto no céu. Ainda não tinha se dado conta daquilo. Virou-se e se deparou com o procurado jornal largado em um canto de sua cama. Pegou-o com uma alegria quase infantil. Finalmente teria como passar o tempo sem se sentir culpado. Afinal estava se informando. Nada mais justo!
Foi para a sala e se jogou no sofá. Era tudo do que ele precisava. Observou por um tempo a primeira página. Era incrível como não havia tantas diferenças das anteriores: os nomes ali descritos eram sim diferentes os fatos nem tanto e, no final, dava tudo na mesma. Irritou-se um pouco. “É sempre a mesma coisa. Dia após dia!”. Havia perdido a vontade de lê-lo. Mas ainda não queria voltar àquelas páginas intermináveis. Ainda não estava pronto. Pôs-se então a folhear o jornal. Acabaria ganhando alguns minutos. Folha após folha. Olhava de relance uma manchete aqui, outra acolá. De vez em quando se prendia a observar uma foto ou outra. E assim foi indo: jogava uma folha para um lado, outra para outro e elas foram se acumulando ao seu redor. Quando seus olhos quase não mais registravam o que passava a sua frente, deparou-se com seu horóscopo do dia. Ali na sua frente. Já que estava ali mesmo começou a ler em voz alta, com se tivesse alguém mais a sua volta, do jeito que as pessoas fazem quando estão tentando desvendar os mistérios contidos naquelas breves linhas: “O alinhamento dos planetas torna o dia turbulento para os nativos de Touro. Surpresas aguardam-o ao final do dia...”
Parou por ali. Não conseguiu continuar até o fim. Qualquer pessoa que escrevesse “aguardam-o” não seria capaz de ditar o futuro. Não o seu. Jogou o resto do jornal no chão. Para que mesmo foi ler aquilo? Não sabia. Provavelmente foi movido pelo desespero de fugir dos erros que o atormentavam no escritório. Mas parece que deles não escaparia tão cedo. “Dia turbulento”, balbuciou com desdém. Realmente. Ter de se deparar com tais monstruosidades durante todo o dia realmente o tornaria turbulento. E além do mais não acreditava em horóscopos. Prever o futuro pelo passado era inaceitável para ele. “Pegue, por exemplo, meu signo. A estrela mais brilhante da constelação de Touro é Aldebaran que se encontra a uma distância de 68 anos-luz da Terra. Não precisa ser nenhum físico ou coisa parecida para saber que leva um bocado de tempo para se percorrer tal distância. Assim, o que um astrólogo previu para os taurinos, hoje, por exemplo, é baseado em um feixe de luz emitido há..., sei lá... muito tempo atrás. E mesmo assim tenho de acreditar que esta luz do passado vai me dizer algo sobre meu futuro? É demais até mesmo pra mim!”, dizia sempre àqueles que se aventuravam em tentar convencê-lo.
Aquele fora o ponto final. Preferiria enfrentar os intermináveis erros que abandonara no escritório. Pelo menos era pago. E no final acabava por se divertir um pouco com os absurdos que encontrava. Publicam qualquer coisa hoje em dia. “Sem conteúdo ou perspectiva artística. Desde que venda, tudo bem!” Mas era seu emprego. O único que lhe ofereceram que pudesse trabalhar em casa. Não queria gente bisbilhotando sua vida enquanto trabalhava e talvez por isso não tivera muitas opções. Exigência sua que seu tio aceitara sem questionar. “Família tinha que servir pra algo...” Levantou-se. Olhou o amontoado de folhas de jornal. “O Cláudio depois pega. Ele vai adorar...”, pensou enquanto se dirigia ao escritório. Achava que pelo menos assim ele teria algo mais com o que se ocupar. E não ficaria a sua volta, fazendo perguntas intermináveis sobre tudo, tirando sua concentração. Poderia até parecer antipático de sua parte. Até que gostava de conversar com Cláudio, ou de ouvi-lo já que quando começava a falar não parava. Mas prezava muito seu trabalho. Era o único que tinha. E, além do mais, teria tempo à tarde para conversarem um pouco.

Sunday, October 08, 2006

02.

Cláudio corria pelas ruas movimentadas. Tinha pouco tempo para fazer tudo o que queria. Sorte que morava ali por perto, a alguns quarteirões. Vivia em uma casa, de esquina. Dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros, um no quarto principal e outro menor, na verdade um lavabo entre a sala e um pequeno escritório que acabou por tornar-se uma biblioteca – precisava de um lugar para guardar seus livros e os de André. Havia ainda um pequeno quintal aos fundos. Morava lá desde que se formou em enfermagem. Havia bastante tempo. Curiosamente nunca se encontrara com Eduardo antes de começar a trabalhar para ele. Estranhava como poucos metros os separaram por anos sem nunca se esbarrarem em algum lugar. Depois de conviver um pouco com ele acabara por entender. Eduardo levava uma vida quase de confinamento. Detestava sair de casa para fazer o que fosse. Sempre que houvesse a opção, comprava por telefone e pedia para entregar. O máximo que se permitia – e era mesmo sua obrigação – era as idas a editora a fim de buscar e levar seu trabalho. Era revisor. Consegui este emprego devido ao seu português impecável. Pode não parecer, mas quando queria falava de uma forma que deixaria Olavo Bilac maravilhado. Era tão raro um jovem que se preocupava tanto com sua língua-mãe. Cláudio o imaginava como sendo um daqueles alunos que falam tudo certo na sala de aula, mas não para se mostrar ou impressionar alguém. Tinha apenas prazer em falar certo. “Deve ter parado devido às implicâncias dos outros”, pensava. Não tinha certeza, e nunca terá. Exceto, claro, se o próprio Eduardo lhe contar esta historia. Como sabia que isto não aconteceria, se permitia imaginar um pouco. O que valia era que conhecia essa língua como ninguém e ponto.
Ao entrar em casa, foi direto ao quarto. Precisava separar uma roupa para usar naquela noite. Ao acender a luz, notou um bilhete pregado na porta do guarda-roupa. Era de André. Ele tinha este costume. Sempre que precisava se lembrar de algo ou avisar Cláudio de alguma coisa, André deixava um bilhete colado na porta do guarda-roupa. “É um lugar que sempre está à vista.”, explicava quando lhe perguntava de onde havia tirado aquela idéia. E não adiantava tentar mudá-lo. Certa vez comprou-lhe uma agenda. André a usara tranqüilamente. Anotara tudo: seus compromissos, suas idéias, o que deveria lembrar de fazer ou pedir para que Cláudio o fizesse. Mas era só. Lembrara de anotar, mas esquecera de olhar o que tinha anotado. Isto quando lembrava de levá-la consigo. Chegou a perdê-la no supermercado e nem se deu conta. Depois disso, desistiu e acabou tendo que se acostumar com aqueles pedaços de papel pregados na porta do guarda-roupa.
“Cláudio,
Não se esqueça de ir ver se tudo está pronto.
Confirma com todo mundo pra estarem aqui por volta das 19:00.
Não esquece, viu!
André”
Sorriu. Como ele sabia que passaria por lá. E se não passasse? Podia ter ligado. Mas não adiantava. Tudo para ele era por bilhetes. Olhou mais uma vez para aquele pedaço de papel. Pensou. Não sabia se deixava um respondendo. “Bilhete resposta!” Era demais. Arrancou-o com a mão esquerda e com a direita abriu a porta ao lado. Era melhor avisá-lo pessoalmente. Pegou uma camisa preta. Abaixou e puxou uma calça também preta. “Clássico, não?”, pensou enquanto colocava a roupa dentro da mochila. Não era bem isso. Faz alguns anos que começou a reparar que somente comprava roupa escura. Independente da cor, deveria ser escura. Até aprendeu que há uma diferença entre preto, chumbo e grafite. Sutil, mas... Ficou um tempo com aquilo na cabeça. Pensou, pensou e pensou de novo. Mas não entendia. Até que um dia descobriu. Tinha tomado aversão às cores claras devido a sua profissão. Só usava branco o dia inteiro. Branco, branco, branco. Aniversário, natal, amigo invisível, só ganhava roupa branca. Até seu ovo de páscoa era de chocolate branco. Inconscientemente havia se tornado um revolucionário. Um rebelde. Naquela idade um rebelde. E por causa do branco! Nem ele acreditava no que havia se tornado. “Mas é a vida, né?”, dizia para se confortar. Talvez alguém pudesse explicar ...Voltou a si. Não tinha tempo para ficar ali parado, repensando mais uma vez aquilo. Pegou tudo, fechou a porta do guarda-roupa. Correu para o quintal. Tinha de por água nas plantas. Eram somente alguns poucos vasinhos que sobreviviam nem Deus sabia como. Passava meses sem se lembrar deles. Quando ia ver, uns tantos já haviam secado; esturricado seria a palavra certa. Outra época aguava tanto que os pobres coitados viviam afogados em água. Entre mortos e feridos se salvaram alguns poucos, três para ser exato: um cacto, que ficava no local onde mais batia sol; um vaso com uma flor, que nem ele sabia o que era e um pé de pimenta que apesar de nunca ter dado umazinha sequer, pelo menos ainda estava verde. Os três sobreviventes, como foram apelidados por André. Ao terminar, fechou a porta e foi direto embora. O resto, outro dia arrumava. Olhou no relógio. Tinha que ir ainda ao centro da cidade, resolver tudo o que faltava e voltar. Isto em exatamente uma hora e meia. “Nem quero pensar nisso.”, suspirou enquanto subia no ônibus.

Friday, October 06, 2006

01.

Aquele era mais um de diversos dias que ainda viriam, pelo menos para Cláudio. Levantara-se já há alguns minutos. Estava na cozinha preparando o café. Esta não era uma de suas funções, mas gostava de cozinhar. Não que soubesse fazer muitas coisas, eram apenas algumas receitas que qualquer pessoa que morasse sozinha saberia fazer. Preparara a mesa: copos, xícaras, pratos... Nada de mais. Eram quase oito horas. Terminou o café, pegou o jornal que deixara na sala e seguiu pelo corredor.
Tudo era muito discreto, esteticamente limpo: cores claras, poucos objetos, basicamente de metais e de formas retas. No começo, estranhara um pouco. Sua casa era um depósito de coisas: poucas combinavam, metais e madeiras conviviam em um mesmo espaço; era um retrato de sua vida, dos lugares em que viveu, das pessoas com que conviveu. “É como se minhas lembranças tivessem saído da minha memória e caído enquanto eu andava”, brincava. Agora até já se acostumara a andar sem tropeçar em algo. “Você tem que conhecer o dono da casa, para depois criticar alguma coisa. Simplesmente moramos onde podemos ser nós mesmos”.
Encontrara a porta entreaberta ao final do corredor. Estava como no dia anterior, e no anterior e no anterior.... Entrou empurrando-a com a ponta do jornal. Jogou-o em um canto da cama e seguiu em frente, em direção às cortinas.
“Bom d...”
“Já estou acordado, Cláudio.”
Parou surpreso, ainda com as mãos nas cortinas. Virou apenas a cabeça, tentando localizar onde Eduardo poderia estar.
“Então tá, ranzinza!”, disse largando as cortinas como estavam. Respirou e com passos largos voltou até a porta, mais precisamente até a poltrona que ficava ao lado da mesma. Parou e ficou olhando para Eduardo.
Era incrível como alguém de sua idade podia ser daquele jeito. Eduardo tinha pouco mais que vinte e seis anos de idade, mas parecia ter muito menos, tanto que Cláudio, que era alguns anos mais velho que ele, demorou a aceitar a idade dele. Não que tivesse de aceitar algo. Era apenas maneira de falar. É que não se conformava. Eduardo tinha feições muito mais jovens que sua idade. Poderia muito bem se passar por um adolescente de talvez dezenove ou até mesmo dezoito anos. “Principalmente por causa de seus olhos. Que isso, você nunca se olhou no espelho não, Eduardo? Você tem um jeito de olhar diferente. Sei lá. É porque estes olhos azuis são tão... seu jeito é tão... Ahh! Sei lá! Dá vontade de te pegar no colo. Hahaha. Você tem tanta sorte....” era o que sempre dizia. Até que um dia se acostumou e parou de querer mudar aquilo.
Apesar de sua aparência tão jovem, Cláudio se surpreendia como Eduardo podia ser tão seco e ríspido em seus atos. Nunca havia encontrado uma pessoa tão distante como aquela. Alguns diziam ser discrição, outros falta de educação mesmo. Não sabia. Às vezes se confundia com aquilo: “Como pode ser tão duro consigo mesmo? Tenta viver a vida um pouco, garoto!” Com o tempo, pôde perceber que Eduardo sempre mantinha uma expressão fechada. Encarava tudo com tamanha severidade que acabara esquecendo que não deveria ter todas as respostas. Ninguém esperava isto dele, talvez só ele mesmo. Mal sorria e, ultimamente, passava horas trancado no quarto, sentado naquela mesma poltrona. Tinha dias que ficava escondido atrás da porta entreaberta, tentando entender o que se passava naquela cabeça. “É jovem demais para carregar o peso do mundo em suas costas...” Mas somente pensava. Não se arriscaria a comentar, ainda não.
“Não vai abrir as cortinas não?”
“Não. Se quiser, você que abra!”, disse com ar de deboche. “O café já está na mesa. Eu se fosse você, andava rápido, antes que esfrie.”
“Não tô com fome!”, retrucou virando a cara a fim de desviar do olhar de reprovação que recebia de Cláudio. “Acho que não vou comer nada não.”
“Não começa, não. Tá muito cedo. E, você ainda tem que tomar seus remédios”. Saiu. E quase no fim do corredor gritou “Feliz aniversário, tá!”
Eduardo ainda ficou alguns minutos, sentado no escuro. Detestava quando Cláudio fazia aquilo. “Ele sabe que eu vou acabar indo...”, pensava. Não poderia fazer nada. Nem se quisesse, Cláudio estava certo e ele sabia disso. Como isso o irritava!
“Não sei porque ainda não te mandei embora?”, perguntou do quarto.
“Já mandou. Umas dez vezes. Ou você não consegue ficar longe de mim por muito tempo, ou não encontrou alguém com a minha formação que quisesse bancar babá de um marmanjo.”, ironizou.
“Na verdade não encontrei alguém tão desesperado por emprego que chegasse a bancar babá de um marmanjo”, retrucou já na porta da cozinha.
Eduardo sentou-se à mesa. Não tinha mesmo fome. Não conseguia comer quando não dormia a noite. Só cheiro do café já estava lhe revirando o estômago. Observava Cláudio comendo e um só pensamento lhe corria a mente: “Como ele consegue comer tanto tão cedo? Parecia que há anos não comia. Era inacreditável que ainda fosse tão magro.” Com muito custo pegou uma fatia de melão. Demorou ainda alguns minutos olhando-a, estático, até que, finalmente, se pôs a comer. Bebeu um pouco do suco que estava em seu copo. Pegou outra fatia de melão. Ao final, apanhou os comprimidos que já haviam sido separados, jogou-os na boca e virou o resto do suco que havia no copo.
“Bom garoto, tomou tudinho. Agora o tio vai ter que sai. Você consegue ficar umas duas horas sozinho sem quebrar a casa?”
“Não enche!”, resmungou. Não gostava muito de brincadeiras. Já havia dito para ele. Não adiantou nada, é claro. Quanto mais falava, reclamava, mais tinha que escutar piadinhas durante o dia todo, sobre qualquer coisa. Chegava a ser insuportável. Até que um dia parou de falar, reclamar. E, em conseqüência, sumiram as piadinhas. Pelo menos na maior parte do dia. Só não podia ficar de mal-humor...
“Eu escutei, viu! Mas tô sem tempo. Depois a gente conversa.”
Cláudio pegou sua mochila na sala e saiu. Da cozinha escutou-se a porta fechando. Finalmente teria algumas horas de paz. Apesar de, no fundo, gostar de ter outra pessoa na casa, precisava de silencio naquele dia. Tinha muito que fazer. Olhou para a louça suja e para a mesa de café da manha ou para o resto dela. “Depois ele limpa. Pelo menos fica ocupado quando voltar.” Levantou-se e foi para o escritório trabalhar.

Este blog não é nada mais que aspirações de um sonhador... São textos e nada mais. Aproveitem!