Sunday, October 15, 2006

04.

Cláudio fora direto para a editora. Era o local mais próximo. E sabia que Laura tinha um horário vago. Ele ainda não entendera muito bem qual era a função dela. Laura se formou em jornalismo mais ou menos na mesma época que Eduardo se formou em letras. Ela era jovem, inteligente e bonita. Tinha as melhores notas de sua turma. Um currículo invejável por qualquer outro aspirante a jornalista. Poderia ter conseguido um emprego em um dos melhores jornais da cidade e preferiu se um tipo de secretaria pessoal de um editorzinho qualquer. Ela basicamente fazia de tudo, até buscava lanchinhos para ele no meio da tarde. O pior é que gostava. Dizia que acabava conhecendo pessoas diferentes a cada momento: aspirantes a escritores, pseudo-intelectuais, socialites que se cansavam de fazer compras e lançavam livros de como se vestir, portar ou até mesmo viajar..., conhecia muito bem o carinha que trabalhava na cafeteria da esquina e a senhora da banca de jornais, além do tintureiro, sapateiro, pedreiro e todos os demais “-eiros” dos quais se chefe necessitasse. “Adoro conhecer pessoas. Cada uma tem uma história, conhece uma faceta da realidade. Isto me fascina!”, afirmava. Queria se escritora e aproveitava para agregar o máximo de personagens e fatos a sua mente. Assim, poderia trabalhá-los e utilizá-los se precisasse. Como uma forma de inspiração.
Cláudio a conheceu por acaso. Eduardo havia passado muito mal uma noite e pediu-o que levasse um texto revisado ao editor. Ao chegar na editora, encontrou-a no elevador. “Estes são os textos que o Eduardo estava revisando?”, perguntou. Cláudio não chegou a se assustar, mas estranhou um pouco. Como ela poderia saber? Provavelmente era o que estava escrito em seu rosto, em seu olhar intrigado e, porque não, incomodado. “Desculpa, é que ele é o único que, ao invés de simplesmente grampear o envelope, fura-o e fecha com barbante.”, explicou sorrindo. “Ele tem dessas...”, comentou Cláudio meio que sorrindo. “Eu acho charmoso. Antiquado, mas charmoso...”, disse com um leve sorriso de canto de rosto. A partir deste dia, começaram a se ver com mais freqüência, não apenas quando Eduardo não podia ir pessoalmente entregar os textos. E acabaram se tornando amigos.
Logo descobriu que ela tinha uma quedinha por Eduardo. Ela tentava esconder. Mas era só prestar atenção no jeito que sempre continha um sorriso quando ouvia ou falava o nome dele. Era fascinante. Às vezes podia-se perceber no ar, principalmente quando ele estava por perto. “Devia ser aqueles olhos azuis e o jeito de menino carente.”, pensava. E Eduardo nunca notara. Era tão resistente ao convívio social que aprendeu a ignorar o que os outros sentiam por ele. E Laura fazia de tudo para que ele não soubesse. Fez Cláudio até jurar que nunca comentaria nada. Pior, que negaria se, algum dia, Eduardo insinuasse algo. Parecia uma adolescente insegura... No fundo, esperava que Eduardo algum dia chegasse e a pegasse nos braços e a beijasse apaixonadamente, como nos livros. É claro que sabia que isto nunca aconteceria, mas quem poderia culpá-la de querer que acontecesse. Todos já quiseram algum dia.... Provavelmente até Cláudio quando mais novo. Só não comentava. Por isso que achava fascinante.
Cláudio foi direto ao encontro de Laura. Ela havia recebido uma série de textos de novos escritores que deveria passar a seu chefe. Sua mesa estava mergulhada em envelopes dos quais, com muita sorte, um ou dois seriam escolhidos pra serem publicados. Aos demais pretensos escritores seria enviada uma carta rejeitando o texto. Cartas estas que teria que escrever, selar e enviar. Por isso, antes que seu chefe chegasse teria que anotar não só o remetente de cada um daqueles envelopes com também o título de cada texto para não se confundir.
“Que isso?”, perguntou Cláudio estranhando a situação. “Pensei que te encontraria tomando café!”
“Você sabe que eu não bebo café e isso aqui é início de mês.”, respondeu ela enquanto tentava abrir espaço naquela bagunça.
“Eu vim rapidinho só pra confirmar se você vai lá hoje à noite.”, disse Cláudio, ao mesmo tempo que tentava contar quantos envelopes haviam naquela mesa.
“Vou sim. Ás 19:00, né?”,
“É. Na minha casa. O André vai tá esperando vocês.”, confirmou, surpreso com o número de envelopes, vinte e dois para ser exato. E já se despediu: “Certo. Tô indo. A gente se fala mais tarde.”
Estava quase no corredor quando escutou o “Tchau!” de Laura. Como se houvesse alguma dúvida se ela iria... Agora tinha que passar no consultório de Fernanda. E ainda ir ao escritório de André para confirmar antes de voltar para a casa de Eduardo. Olhou no relógio. Não tinha mais que quarenta minutos. Resolveu ir a pé. Afinal, eram apenas uns sete quarteirões descendo a rua e iria se atrasar mesmo.

2 comments:

Anonymous said...

Aiiii
q curiosidaddddddd

Anonymous said...

eitaaa!
Esse aqui tem uma colega, jornalista. Acho que já tinha lido, mas li de novo. Você escreve muito bem. Voltei pra poder ir acompanhando a história, parece que são capítulos né? Queria saber de onde vem a inspiração. O texto tá ótimo. Bjoka