Sunday, November 25, 2007

17.

Eduardo já havia terminado tudo o que tinha de fazer. Ou melhor, quase tudo. Ainda faltava corrigir o arquivo no computador. Mas não conseguida se concentrar mais. Deixou-se imóvel em uma poltrona em que costumava se sentar para ler, ouvido, eventualmente, Cláudio na cozinha. “Pelo cheiro, já deve estar tudo pronto.” imaginava. Se dependesse de Eduardo, não haveria almoço. Não sentia fome. Não sentiria por alguns dias provavelmente... Não queria, contudo, chegar a extremos novamente. Conhecia por completo aquela situação. Suas conseqüências. As reações dos que os cercavam. Se bem que agora havia somente Cláudio. Diretamente ao menos. E ele nunca o deixaria chegar aos extremos: ao notar qualquer mudança, qualquer sinal que pudesse prenunciar algo, Cláudio não sairia do lado de Eduardo; seria sua nova sombra; seria a razão que lhe faltara anteriormente. “Incrível como alguém que mal me conhece, que é pago para conviver comigo se preocupa tanto” admirava-se Eduardo. Havia algo na natureza de Cláudio que o tornava tão diferente dos demais. Pelo menos na percepção de Eduardo, Cláudio era uma daquelas figuras míticas que se encontram somente em lendas antigas sobre a bondade humana.
Eduardo ainda divagava sobre a natureza de Cláudio em meio à diversidade hipócrita com a qual convivera durante os anos quando o próprio atirou-se repentinamente pela porta do escritório, avançando rapidamente em direção de Eduardo, aprisionando-o naquele pequeno espaço coberto por couro. Eduardo nunca havia presenciado comportamento parecido. Não de Cláudio. Nem mesmo nas tantas vezes que conseguira tirá-lo do sério com seus comentários. Algo ocorrera. E logo saberia.
“Que isso! Não te deram educação, não?” tentou ironizar.
“Nada de gracinhas! Quero saber o que aconteceu!” ordenou Cláudio endireitando Eduardo na poltrona.
“Hei! Vamos tirando a mão! Não tem nada aqui para saber! Quem te deu essa liberdade??”
“Pára de bancar o esnobe reservado! Algo aconteceu enquanto estava fora!”
“Claro que aconteceu: a paz voltou a reinar aqui. Pelo menos por algumas horas...” disse Eduardo se levantando, forçando Cláudio a se afastar. Cláudio havia percebi algo no comportamento de Eduardo que buscava a todo custo desviar os rumos daquela conversa. Para Eduardo, era inaceitável que qualquer um o confrontasse daquela forma e, ignorando a própria presença de Cláudio, dirigiu-se sua mesa de trabalho, ligou o computador e sentou-se. Cláudio enfureceu-se. Compreender como Eduardo conseguia agir como se nada houvesse acontecido, como podia ignorar por completo uma situação como aquela, era impossível para alguém como Cláudio. Não que fosse um intrometido ou um curioso. Ou um curioso intrometido. Ou um intrometido curioso. Cláudio realmente se preocupava com Eduardo e se abismava como ele fazia de tudo para afastá-lo.
“Eu já vi o envelope, a foto e o bilhete...” começou a falar em um tom mais moderado, “... e eu também sei de tudo o que já aconteceu. Ou você achou que sua mãe iria me contratar sem me explicar o que eu deveria fazer aqui?!?!”, interrompeu-se, jogando-se na poltrona. “Será que pelo menos uma vez poderíamos parar com esse jogo?” suspirou Cláudio ante a atitude que presenciara.
Eduardo ainda continuava sentando. De costas a Cláudio. Sem conseguir se mover. Podia ver o reflexo de Cláudio, curvado, apoiando os cotovelos nas coxas, segurando o rosto com as duas mãos, esperando por uma resposta. Resposta que Eduardo não conseguira dar. Não ali. Foi a primeira vez que alguém se realmente preocupava com ele. Que se interessava em ajudar no combate com seus os demônios internos. Não sabia como reagir à sinceridade contida no pedido de Eduardo. Pelo reflexo pôde vê-lo se levantar derrotado. Sentiu um de suas mãos em seu ombro. “O almoço está pronto! Vamos antes que ele esfrie ainda mais.” foram as palavras de Cláudio antes de sair decepcionado pela porta.

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