Saturday, September 29, 2007

14.

Eduardo ainda não tinha se dado conta de que Cláudio estava de volta. Passara os últimos minutos sentado, imóvel, no canto da sala. Incrível como as pessoas são capazes de certos atos. Qual o objetivo de se evocar certos acontecimentos. Anos já haviam se passado. A culpa que sentia não. Apesar de não mais flutuar em seu consciente, ainda estava lá, corroendo-o a cada segundo. Tornara-se imune à dor; a seus efeitos, não. Eduardo realmente acreditava que tinha se tornado forte, forte o suficiente para não mais ser atingido por nada. Preparou-se com tamanho afinco: isolou-se por um muro tão alto e espesso quanto possível. Só não esperava, após tanto esforço, que este caísse por si mesmo: esquecera de se fortalecer; confiou apenas em seu muro...
Agora via isto claramente. Enxergava-se pelo que realmente era: uma pessoa como outra qualquer, vulnerável como todas o são! E isso o horrorizava. Não queria mais ser aquele de anos atrás. Queria ser outro! Não queria mais ser humano... Apesar de, inconscientemente, saber da grande probabilidade de fracasso, Eduardo realmente acreditava que conseguiria eliminar algo inerente a sua natureza! Escondera-se por um bom tempo e planejava continuar agindo desta mesma forma até que finalmente morresse... Mas, agora, encontrava-se perdido. Tudo o que havia construído para evitar esse momento fora em vão. Não sabia o que fazer. Mais uma vez....
Notou, então, um movimento ao seu redor. Era Cláudio a poucos passos de onde estava. “Quando mesmo que ele chegou?” Revirou sua mente sem êxito. Ao perceber que Eduardo o observara, Cláudio passou a mexer nisso e naquilo, em coisas sem importância na esperança de Eduardo nem o notar. Mal sabia Cláudio que Eduardo também nutria a mesma esperança. Tudo de que não precisava naquele exato momento era da curiosidade alheia. Era de olhares inquisitivos como os mesmo de antes, buscando respostas e estampando piedade. Precisava de tempo. Tempo para limpar tudo e varrer novamente para algum canto escuro, onde não ousaria entrar novamente.
Eduardo se levantou. Passou por Cláudio, que permaneceu estático. Decidira voltar a suas palavras. Elas sim o ocupariam por muito tempo. Tempo suficiente para se organizar. Era o que esperava.
“Quando o almoço estiver pronto me chama.” foram as únicas palavras que dirigiu a Cláudio, antes de seguir pelo corredor e voltar a se perder em seu trabalho.

2 comments:

Rodrigo said...

hum, atualizou e nem me comunicou, né?!
hunf...
adivinha, ganhei mais um dia na net =) estou aproveitando pra baixar Funny Games!

o que será que vai ter de almoço na casa do Edu? hehehehe... esses taurinos que não gostam de aniversário são fogo!

Pra vc, Adriano, um abraço!

Anonymous said...

comentei no dia 15 de Outubro de 2006