01.
Aquele era mais um de diversos dias que ainda viriam, pelo menos para Cláudio. Levantara-se já há alguns minutos. Estava na cozinha preparando o café. Esta não era uma de suas funções, mas gostava de cozinhar. Não que soubesse fazer muitas coisas, eram apenas algumas receitas que qualquer pessoa que morasse sozinha saberia fazer. Preparara a mesa: copos, xícaras, pratos... Nada de mais. Eram quase oito horas. Terminou o café, pegou o jornal que deixara na sala e seguiu pelo corredor.
Tudo era muito discreto, esteticamente limpo: cores claras, poucos objetos, basicamente de metais e de formas retas. No começo, estranhara um pouco. Sua casa era um depósito de coisas: poucas combinavam, metais e madeiras conviviam em um mesmo espaço; era um retrato de sua vida, dos lugares em que viveu, das pessoas com que conviveu. “É como se minhas lembranças tivessem saído da minha memória e caído enquanto eu andava”, brincava. Agora até já se acostumara a andar sem tropeçar em algo. “Você tem que conhecer o dono da casa, para depois criticar alguma coisa. Simplesmente moramos onde podemos ser nós mesmos”.
Encontrara a porta entreaberta ao final do corredor. Estava como no dia anterior, e no anterior e no anterior.... Entrou empurrando-a com a ponta do jornal. Jogou-o em um canto da cama e seguiu em frente, em direção às cortinas.
“Bom d...”
“Já estou acordado, Cláudio.”
Parou surpreso, ainda com as mãos nas cortinas. Virou apenas a cabeça, tentando localizar onde Eduardo poderia estar.
“Então tá, ranzinza!”, disse largando as cortinas como estavam. Respirou e com passos largos voltou até a porta, mais precisamente até a poltrona que ficava ao lado da mesma. Parou e ficou olhando para Eduardo.
Era incrível como alguém de sua idade podia ser daquele jeito. Eduardo tinha pouco mais que vinte e seis anos de idade, mas parecia ter muito menos, tanto que Cláudio, que era alguns anos mais velho que ele, demorou a aceitar a idade dele. Não que tivesse de aceitar algo. Era apenas maneira de falar. É que não se conformava. Eduardo tinha feições muito mais jovens que sua idade. Poderia muito bem se passar por um adolescente de talvez dezenove ou até mesmo dezoito anos. “Principalmente por causa de seus olhos. Que isso, você nunca se olhou no espelho não, Eduardo? Você tem um jeito de olhar diferente. Sei lá. É porque estes olhos azuis são tão... seu jeito é tão... Ahh! Sei lá! Dá vontade de te pegar no colo. Hahaha. Você tem tanta sorte....” era o que sempre dizia. Até que um dia se acostumou e parou de querer mudar aquilo.
Apesar de sua aparência tão jovem, Cláudio se surpreendia como Eduardo podia ser tão seco e ríspido em seus atos. Nunca havia encontrado uma pessoa tão distante como aquela. Alguns diziam ser discrição, outros falta de educação mesmo. Não sabia. Às vezes se confundia com aquilo: “Como pode ser tão duro consigo mesmo? Tenta viver a vida um pouco, garoto!” Com o tempo, pôde perceber que Eduardo sempre mantinha uma expressão fechada. Encarava tudo com tamanha severidade que acabara esquecendo que não deveria ter todas as respostas. Ninguém esperava isto dele, talvez só ele mesmo. Mal sorria e, ultimamente, passava horas trancado no quarto, sentado naquela mesma poltrona. Tinha dias que ficava escondido atrás da porta entreaberta, tentando entender o que se passava naquela cabeça. “É jovem demais para carregar o peso do mundo em suas costas...” Mas somente pensava. Não se arriscaria a comentar, ainda não.
“Não vai abrir as cortinas não?”
“Não. Se quiser, você que abra!”, disse com ar de deboche. “O café já está na mesa. Eu se fosse você, andava rápido, antes que esfrie.”
“Não tô com fome!”, retrucou virando a cara a fim de desviar do olhar de reprovação que recebia de Cláudio. “Acho que não vou comer nada não.”
“Não começa, não. Tá muito cedo. E, você ainda tem que tomar seus remédios”. Saiu. E quase no fim do corredor gritou “Feliz aniversário, tá!”
Eduardo ainda ficou alguns minutos, sentado no escuro. Detestava quando Cláudio fazia aquilo. “Ele sabe que eu vou acabar indo...”, pensava. Não poderia fazer nada. Nem se quisesse, Cláudio estava certo e ele sabia disso. Como isso o irritava!
“Não sei porque ainda não te mandei embora?”, perguntou do quarto.
“Já mandou. Umas dez vezes. Ou você não consegue ficar longe de mim por muito tempo, ou não encontrou alguém com a minha formação que quisesse bancar babá de um marmanjo.”, ironizou.
“Na verdade não encontrei alguém tão desesperado por emprego que chegasse a bancar babá de um marmanjo”, retrucou já na porta da cozinha.
Eduardo sentou-se à mesa. Não tinha mesmo fome. Não conseguia comer quando não dormia a noite. Só cheiro do café já estava lhe revirando o estômago. Observava Cláudio comendo e um só pensamento lhe corria a mente: “Como ele consegue comer tanto tão cedo? Parecia que há anos não comia. Era inacreditável que ainda fosse tão magro.” Com muito custo pegou uma fatia de melão. Demorou ainda alguns minutos olhando-a, estático, até que, finalmente, se pôs a comer. Bebeu um pouco do suco que estava em seu copo. Pegou outra fatia de melão. Ao final, apanhou os comprimidos que já haviam sido separados, jogou-os na boca e virou o resto do suco que havia no copo.
“Bom garoto, tomou tudinho. Agora o tio vai ter que sai. Você consegue ficar umas duas horas sozinho sem quebrar a casa?”
“Não enche!”, resmungou. Não gostava muito de brincadeiras. Já havia dito para ele. Não adiantou nada, é claro. Quanto mais falava, reclamava, mais tinha que escutar piadinhas durante o dia todo, sobre qualquer coisa. Chegava a ser insuportável. Até que um dia parou de falar, reclamar. E, em conseqüência, sumiram as piadinhas. Pelo menos na maior parte do dia. Só não podia ficar de mal-humor...
“Eu escutei, viu! Mas tô sem tempo. Depois a gente conversa.”
Cláudio pegou sua mochila na sala e saiu. Da cozinha escutou-se a porta fechando. Finalmente teria algumas horas de paz. Apesar de, no fundo, gostar de ter outra pessoa na casa, precisava de silencio naquele dia. Tinha muito que fazer. Olhou para a louça suja e para a mesa de café da manha ou para o resto dela. “Depois ele limpa. Pelo menos fica ocupado quando voltar.” Levantou-se e foi para o escritório trabalhar.
Aquele era mais um de diversos dias que ainda viriam, pelo menos para Cláudio. Levantara-se já há alguns minutos. Estava na cozinha preparando o café. Esta não era uma de suas funções, mas gostava de cozinhar. Não que soubesse fazer muitas coisas, eram apenas algumas receitas que qualquer pessoa que morasse sozinha saberia fazer. Preparara a mesa: copos, xícaras, pratos... Nada de mais. Eram quase oito horas. Terminou o café, pegou o jornal que deixara na sala e seguiu pelo corredor.
Tudo era muito discreto, esteticamente limpo: cores claras, poucos objetos, basicamente de metais e de formas retas. No começo, estranhara um pouco. Sua casa era um depósito de coisas: poucas combinavam, metais e madeiras conviviam em um mesmo espaço; era um retrato de sua vida, dos lugares em que viveu, das pessoas com que conviveu. “É como se minhas lembranças tivessem saído da minha memória e caído enquanto eu andava”, brincava. Agora até já se acostumara a andar sem tropeçar em algo. “Você tem que conhecer o dono da casa, para depois criticar alguma coisa. Simplesmente moramos onde podemos ser nós mesmos”.
Encontrara a porta entreaberta ao final do corredor. Estava como no dia anterior, e no anterior e no anterior.... Entrou empurrando-a com a ponta do jornal. Jogou-o em um canto da cama e seguiu em frente, em direção às cortinas.
“Bom d...”
“Já estou acordado, Cláudio.”
Parou surpreso, ainda com as mãos nas cortinas. Virou apenas a cabeça, tentando localizar onde Eduardo poderia estar.
“Então tá, ranzinza!”, disse largando as cortinas como estavam. Respirou e com passos largos voltou até a porta, mais precisamente até a poltrona que ficava ao lado da mesma. Parou e ficou olhando para Eduardo.
Era incrível como alguém de sua idade podia ser daquele jeito. Eduardo tinha pouco mais que vinte e seis anos de idade, mas parecia ter muito menos, tanto que Cláudio, que era alguns anos mais velho que ele, demorou a aceitar a idade dele. Não que tivesse de aceitar algo. Era apenas maneira de falar. É que não se conformava. Eduardo tinha feições muito mais jovens que sua idade. Poderia muito bem se passar por um adolescente de talvez dezenove ou até mesmo dezoito anos. “Principalmente por causa de seus olhos. Que isso, você nunca se olhou no espelho não, Eduardo? Você tem um jeito de olhar diferente. Sei lá. É porque estes olhos azuis são tão... seu jeito é tão... Ahh! Sei lá! Dá vontade de te pegar no colo. Hahaha. Você tem tanta sorte....” era o que sempre dizia. Até que um dia se acostumou e parou de querer mudar aquilo.
Apesar de sua aparência tão jovem, Cláudio se surpreendia como Eduardo podia ser tão seco e ríspido em seus atos. Nunca havia encontrado uma pessoa tão distante como aquela. Alguns diziam ser discrição, outros falta de educação mesmo. Não sabia. Às vezes se confundia com aquilo: “Como pode ser tão duro consigo mesmo? Tenta viver a vida um pouco, garoto!” Com o tempo, pôde perceber que Eduardo sempre mantinha uma expressão fechada. Encarava tudo com tamanha severidade que acabara esquecendo que não deveria ter todas as respostas. Ninguém esperava isto dele, talvez só ele mesmo. Mal sorria e, ultimamente, passava horas trancado no quarto, sentado naquela mesma poltrona. Tinha dias que ficava escondido atrás da porta entreaberta, tentando entender o que se passava naquela cabeça. “É jovem demais para carregar o peso do mundo em suas costas...” Mas somente pensava. Não se arriscaria a comentar, ainda não.
“Não vai abrir as cortinas não?”
“Não. Se quiser, você que abra!”, disse com ar de deboche. “O café já está na mesa. Eu se fosse você, andava rápido, antes que esfrie.”
“Não tô com fome!”, retrucou virando a cara a fim de desviar do olhar de reprovação que recebia de Cláudio. “Acho que não vou comer nada não.”
“Não começa, não. Tá muito cedo. E, você ainda tem que tomar seus remédios”. Saiu. E quase no fim do corredor gritou “Feliz aniversário, tá!”
Eduardo ainda ficou alguns minutos, sentado no escuro. Detestava quando Cláudio fazia aquilo. “Ele sabe que eu vou acabar indo...”, pensava. Não poderia fazer nada. Nem se quisesse, Cláudio estava certo e ele sabia disso. Como isso o irritava!
“Não sei porque ainda não te mandei embora?”, perguntou do quarto.
“Já mandou. Umas dez vezes. Ou você não consegue ficar longe de mim por muito tempo, ou não encontrou alguém com a minha formação que quisesse bancar babá de um marmanjo.”, ironizou.
“Na verdade não encontrei alguém tão desesperado por emprego que chegasse a bancar babá de um marmanjo”, retrucou já na porta da cozinha.
Eduardo sentou-se à mesa. Não tinha mesmo fome. Não conseguia comer quando não dormia a noite. Só cheiro do café já estava lhe revirando o estômago. Observava Cláudio comendo e um só pensamento lhe corria a mente: “Como ele consegue comer tanto tão cedo? Parecia que há anos não comia. Era inacreditável que ainda fosse tão magro.” Com muito custo pegou uma fatia de melão. Demorou ainda alguns minutos olhando-a, estático, até que, finalmente, se pôs a comer. Bebeu um pouco do suco que estava em seu copo. Pegou outra fatia de melão. Ao final, apanhou os comprimidos que já haviam sido separados, jogou-os na boca e virou o resto do suco que havia no copo.
“Bom garoto, tomou tudinho. Agora o tio vai ter que sai. Você consegue ficar umas duas horas sozinho sem quebrar a casa?”
“Não enche!”, resmungou. Não gostava muito de brincadeiras. Já havia dito para ele. Não adiantou nada, é claro. Quanto mais falava, reclamava, mais tinha que escutar piadinhas durante o dia todo, sobre qualquer coisa. Chegava a ser insuportável. Até que um dia parou de falar, reclamar. E, em conseqüência, sumiram as piadinhas. Pelo menos na maior parte do dia. Só não podia ficar de mal-humor...
“Eu escutei, viu! Mas tô sem tempo. Depois a gente conversa.”
Cláudio pegou sua mochila na sala e saiu. Da cozinha escutou-se a porta fechando. Finalmente teria algumas horas de paz. Apesar de, no fundo, gostar de ter outra pessoa na casa, precisava de silencio naquele dia. Tinha muito que fazer. Olhou para a louça suja e para a mesa de café da manha ou para o resto dela. “Depois ele limpa. Pelo menos fica ocupado quando voltar.” Levantou-se e foi para o escritório trabalhar.
2 comments:
Pra variar muito bom....
Uhm....num tem nd d bom pra flar então vou indo...
Ah adorei o texto
Abraçãooooo e fui
eu digo q eu to gostando hehe, mais detalhes pelo msn bejo! =***
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