02.
Cláudio corria pelas ruas movimentadas. Tinha pouco tempo para fazer tudo o que queria. Sorte que morava ali por perto, a alguns quarteirões. Vivia em uma casa, de esquina. Dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros, um no quarto principal e outro menor, na verdade um lavabo entre a sala e um pequeno escritório que acabou por tornar-se uma biblioteca – precisava de um lugar para guardar seus livros e os de André. Havia ainda um pequeno quintal aos fundos. Morava lá desde que se formou em enfermagem. Havia bastante tempo. Curiosamente nunca se encontrara com Eduardo antes de começar a trabalhar para ele. Estranhava como poucos metros os separaram por anos sem nunca se esbarrarem em algum lugar. Depois de conviver um pouco com ele acabara por entender. Eduardo levava uma vida quase de confinamento. Detestava sair de casa para fazer o que fosse. Sempre que houvesse a opção, comprava por telefone e pedia para entregar. O máximo que se permitia – e era mesmo sua obrigação – era as idas a editora a fim de buscar e levar seu trabalho. Era revisor. Consegui este emprego devido ao seu português impecável. Pode não parecer, mas quando queria falava de uma forma que deixaria Olavo Bilac maravilhado. Era tão raro um jovem que se preocupava tanto com sua língua-mãe. Cláudio o imaginava como sendo um daqueles alunos que falam tudo certo na sala de aula, mas não para se mostrar ou impressionar alguém. Tinha apenas prazer em falar certo. “Deve ter parado devido às implicâncias dos outros”, pensava. Não tinha certeza, e nunca terá. Exceto, claro, se o próprio Eduardo lhe contar esta historia. Como sabia que isto não aconteceria, se permitia imaginar um pouco. O que valia era que conhecia essa língua como ninguém e ponto.
Ao entrar em casa, foi direto ao quarto. Precisava separar uma roupa para usar naquela noite. Ao acender a luz, notou um bilhete pregado na porta do guarda-roupa. Era de André. Ele tinha este costume. Sempre que precisava se lembrar de algo ou avisar Cláudio de alguma coisa, André deixava um bilhete colado na porta do guarda-roupa. “É um lugar que sempre está à vista.”, explicava quando lhe perguntava de onde havia tirado aquela idéia. E não adiantava tentar mudá-lo. Certa vez comprou-lhe uma agenda. André a usara tranqüilamente. Anotara tudo: seus compromissos, suas idéias, o que deveria lembrar de fazer ou pedir para que Cláudio o fizesse. Mas era só. Lembrara de anotar, mas esquecera de olhar o que tinha anotado. Isto quando lembrava de levá-la consigo. Chegou a perdê-la no supermercado e nem se deu conta. Depois disso, desistiu e acabou tendo que se acostumar com aqueles pedaços de papel pregados na porta do guarda-roupa.
“Cláudio,
Não se esqueça de ir ver se tudo está pronto.
Confirma com todo mundo pra estarem aqui por volta das 19:00.
Não esquece, viu!
André”
Sorriu. Como ele sabia que passaria por lá. E se não passasse? Podia ter ligado. Mas não adiantava. Tudo para ele era por bilhetes. Olhou mais uma vez para aquele pedaço de papel. Pensou. Não sabia se deixava um respondendo. “Bilhete resposta!” Era demais. Arrancou-o com a mão esquerda e com a direita abriu a porta ao lado. Era melhor avisá-lo pessoalmente. Pegou uma camisa preta. Abaixou e puxou uma calça também preta. “Clássico, não?”, pensou enquanto colocava a roupa dentro da mochila. Não era bem isso. Faz alguns anos que começou a reparar que somente comprava roupa escura. Independente da cor, deveria ser escura. Até aprendeu que há uma diferença entre preto, chumbo e grafite. Sutil, mas... Ficou um tempo com aquilo na cabeça. Pensou, pensou e pensou de novo. Mas não entendia. Até que um dia descobriu. Tinha tomado aversão às cores claras devido a sua profissão. Só usava branco o dia inteiro. Branco, branco, branco. Aniversário, natal, amigo invisível, só ganhava roupa branca. Até seu ovo de páscoa era de chocolate branco. Inconscientemente havia se tornado um revolucionário. Um rebelde. Naquela idade um rebelde. E por causa do branco! Nem ele acreditava no que havia se tornado. “Mas é a vida, né?”, dizia para se confortar. Talvez alguém pudesse explicar ...Voltou a si. Não tinha tempo para ficar ali parado, repensando mais uma vez aquilo. Pegou tudo, fechou a porta do guarda-roupa. Correu para o quintal. Tinha de por água nas plantas. Eram somente alguns poucos vasinhos que sobreviviam nem Deus sabia como. Passava meses sem se lembrar deles. Quando ia ver, uns tantos já haviam secado; esturricado seria a palavra certa. Outra época aguava tanto que os pobres coitados viviam afogados em água. Entre mortos e feridos se salvaram alguns poucos, três para ser exato: um cacto, que ficava no local onde mais batia sol; um vaso com uma flor, que nem ele sabia o que era e um pé de pimenta que apesar de nunca ter dado umazinha sequer, pelo menos ainda estava verde. Os três sobreviventes, como foram apelidados por André. Ao terminar, fechou a porta e foi direto embora. O resto, outro dia arrumava. Olhou no relógio. Tinha que ir ainda ao centro da cidade, resolver tudo o que faltava e voltar. Isto em exatamente uma hora e meia. “Nem quero pensar nisso.”, suspirou enquanto subia no ônibus.
Cláudio corria pelas ruas movimentadas. Tinha pouco tempo para fazer tudo o que queria. Sorte que morava ali por perto, a alguns quarteirões. Vivia em uma casa, de esquina. Dois quartos, sala, cozinha, dois banheiros, um no quarto principal e outro menor, na verdade um lavabo entre a sala e um pequeno escritório que acabou por tornar-se uma biblioteca – precisava de um lugar para guardar seus livros e os de André. Havia ainda um pequeno quintal aos fundos. Morava lá desde que se formou em enfermagem. Havia bastante tempo. Curiosamente nunca se encontrara com Eduardo antes de começar a trabalhar para ele. Estranhava como poucos metros os separaram por anos sem nunca se esbarrarem em algum lugar. Depois de conviver um pouco com ele acabara por entender. Eduardo levava uma vida quase de confinamento. Detestava sair de casa para fazer o que fosse. Sempre que houvesse a opção, comprava por telefone e pedia para entregar. O máximo que se permitia – e era mesmo sua obrigação – era as idas a editora a fim de buscar e levar seu trabalho. Era revisor. Consegui este emprego devido ao seu português impecável. Pode não parecer, mas quando queria falava de uma forma que deixaria Olavo Bilac maravilhado. Era tão raro um jovem que se preocupava tanto com sua língua-mãe. Cláudio o imaginava como sendo um daqueles alunos que falam tudo certo na sala de aula, mas não para se mostrar ou impressionar alguém. Tinha apenas prazer em falar certo. “Deve ter parado devido às implicâncias dos outros”, pensava. Não tinha certeza, e nunca terá. Exceto, claro, se o próprio Eduardo lhe contar esta historia. Como sabia que isto não aconteceria, se permitia imaginar um pouco. O que valia era que conhecia essa língua como ninguém e ponto.
Ao entrar em casa, foi direto ao quarto. Precisava separar uma roupa para usar naquela noite. Ao acender a luz, notou um bilhete pregado na porta do guarda-roupa. Era de André. Ele tinha este costume. Sempre que precisava se lembrar de algo ou avisar Cláudio de alguma coisa, André deixava um bilhete colado na porta do guarda-roupa. “É um lugar que sempre está à vista.”, explicava quando lhe perguntava de onde havia tirado aquela idéia. E não adiantava tentar mudá-lo. Certa vez comprou-lhe uma agenda. André a usara tranqüilamente. Anotara tudo: seus compromissos, suas idéias, o que deveria lembrar de fazer ou pedir para que Cláudio o fizesse. Mas era só. Lembrara de anotar, mas esquecera de olhar o que tinha anotado. Isto quando lembrava de levá-la consigo. Chegou a perdê-la no supermercado e nem se deu conta. Depois disso, desistiu e acabou tendo que se acostumar com aqueles pedaços de papel pregados na porta do guarda-roupa.
“Cláudio,
Não se esqueça de ir ver se tudo está pronto.
Confirma com todo mundo pra estarem aqui por volta das 19:00.
Não esquece, viu!
André”
Sorriu. Como ele sabia que passaria por lá. E se não passasse? Podia ter ligado. Mas não adiantava. Tudo para ele era por bilhetes. Olhou mais uma vez para aquele pedaço de papel. Pensou. Não sabia se deixava um respondendo. “Bilhete resposta!” Era demais. Arrancou-o com a mão esquerda e com a direita abriu a porta ao lado. Era melhor avisá-lo pessoalmente. Pegou uma camisa preta. Abaixou e puxou uma calça também preta. “Clássico, não?”, pensou enquanto colocava a roupa dentro da mochila. Não era bem isso. Faz alguns anos que começou a reparar que somente comprava roupa escura. Independente da cor, deveria ser escura. Até aprendeu que há uma diferença entre preto, chumbo e grafite. Sutil, mas... Ficou um tempo com aquilo na cabeça. Pensou, pensou e pensou de novo. Mas não entendia. Até que um dia descobriu. Tinha tomado aversão às cores claras devido a sua profissão. Só usava branco o dia inteiro. Branco, branco, branco. Aniversário, natal, amigo invisível, só ganhava roupa branca. Até seu ovo de páscoa era de chocolate branco. Inconscientemente havia se tornado um revolucionário. Um rebelde. Naquela idade um rebelde. E por causa do branco! Nem ele acreditava no que havia se tornado. “Mas é a vida, né?”, dizia para se confortar. Talvez alguém pudesse explicar ...Voltou a si. Não tinha tempo para ficar ali parado, repensando mais uma vez aquilo. Pegou tudo, fechou a porta do guarda-roupa. Correu para o quintal. Tinha de por água nas plantas. Eram somente alguns poucos vasinhos que sobreviviam nem Deus sabia como. Passava meses sem se lembrar deles. Quando ia ver, uns tantos já haviam secado; esturricado seria a palavra certa. Outra época aguava tanto que os pobres coitados viviam afogados em água. Entre mortos e feridos se salvaram alguns poucos, três para ser exato: um cacto, que ficava no local onde mais batia sol; um vaso com uma flor, que nem ele sabia o que era e um pé de pimenta que apesar de nunca ter dado umazinha sequer, pelo menos ainda estava verde. Os três sobreviventes, como foram apelidados por André. Ao terminar, fechou a porta e foi direto embora. O resto, outro dia arrumava. Olhou no relógio. Tinha que ir ainda ao centro da cidade, resolver tudo o que faltava e voltar. Isto em exatamente uma hora e meia. “Nem quero pensar nisso.”, suspirou enquanto subia no ônibus.
1 comments:
Rapaz, isso tá cheirando a livro reportagem, ou mehor, blog reportagem hehehe e vc sabe q disso eu entendo! um bejão! =****
Post a Comment