Monday, October 09, 2006

03.

Eduardo olhava aquela pilha de folhas que ainda faltava. Devia ser umas cinqüenta. Não conseguia se concentrar. Não porque tivesse mais o que fazer ou algo lhe atrapalhando. Na verdade o texto era tão ruim que as palavras pareciam se multiplicar somente para ele não terminar uma pagina. “Como cabem tantas palavras numa única página! Credo!”. Além disso, o tempo teimava em não passar. Parecia que o relógio estava mais preguiçoso que de costume. O ponteiro levava pelo menos dois minutos para terminar uma volta. Não lhe parecia justo aquilo. Era tortura. Um complô cósmico para puni-lo por algo que não sabia ao certo o que era. Não aquentava mais. Precisava de um tempo para refrescar a mente. Estava com sede. E com fome. Tinha que ir ao banheiro e não podia deixar aquela sujeira na cozinha, a mesma que largou para que Cláudio limpasse quando chegasse. Mas tudo não passava de desculpas. Tinha de encarar: não queria mais ficar sentado e vendo aquelas palavras brincarem com sua mente. Mas o que iria fazer? Não estava com sede, nem com fome. Fazia nem cinco minutos que havia ido ao banheiro e não, realmente não iria limpar a mesa de café da manhã. Resolveu então perambular pela sala a fim de encontrar algo diferente, nem que fosse ler os obituários dos dias anteriores.
Parou no vão que dava acesso à sala. Pegou-se olhando, observando um pouco de tudo: a almofada azul-clara jogada num canto do sofá branco, a pilha de jornais antigos no aparador ao canto, logo ao lado das violetas roxas – presente de Cláudio, é claro! –, uma foto sua quando criança brincando com seus cachorros, a única foto que tinha em casa. Lembrou-se de quantas vezes Cláudio quis saber o porquê de não haver outras fotos naquela casa. “Não me diga de não existem outras fotos suas ou de alguém que conheça?”, sempre perguntava encabulado. “Se existem, não dou a mínima! Esta é a única que gosto de olhar. O resto não me importa, não tem valor.”, sempre respondia. Era a única resposta que Cláudio não contestava. Certa vez perguntou-o se nunca colocaria outras fotos ali. “Depende, Cláudio. Se julgar importante para mim, sim. Se não, vão todas pro lixo!”. Nunca se esqueceria da cara de espanto dele. “Ainda não estava acostumado com minhas respostas.”, concluiu. E, só para implicá-lo, ainda teve de escutar de Cláudio: “Bom saber. Eu ia te dar uma foto minha, mas agora não vou gastar meu dinheiro, não!”, e saiu com a cara fechada. Eduardo sorria. Demorou cerca de quatro dias para que Cláudio voltasse a tratá-lo como antes. Às vezes ele era tão sensível. Teve que tomar cuidado com o que dizia por alguns meses até que ele se habituasse a seu mal-humor. E, no final, ele acabara se acostumando também com o excessivo bom-humor de Cláudio. “Devo estar pagando os meus pegados! Deve ser karma!”, resmungava de maneira irônica quando queria provocá-lo um pouco. E assim seus dias iam passando.
Balançou a cabeça em sinal de reprovação. Tinha que achar algo para fazer de modo a poder voltar a trabalhar. Revirou a pilha de jornais. Todos antigos. Mas jurava que Cláudio tinha comprado um novo. Ele comprava todo dia. Não precisava nem pedir. Correu a sala com os olhos. Não encontrou nada. Pôs-se a pensar. “Onde ele teria posto o jornal?”. Não encontrou respostas imediatas. Começou a duvidar que Cláudio o tivesse realmente comprado. “É claro que ele não faria isso! É claro que ele não faria isso? É claro que ele não faria isso. É.”. Pensou um pouco mais. Foi quando se lembrou de tê-lo visto nas mãos de Cláudio. “Eu tinha certeza que ele não faria isso!”, gabou-se por um segundo. Correu para o quarto. Devia estar lá em algum lugar. Não conseguia ver muita coisa. As cortinas ainda estavam fechadas. “E depois eu é que sou o pirracento!”, reclamou impaciente. Ao abrir as cortinas, notou que o sol brilhava alto no céu. Ainda não tinha se dado conta daquilo. Virou-se e se deparou com o procurado jornal largado em um canto de sua cama. Pegou-o com uma alegria quase infantil. Finalmente teria como passar o tempo sem se sentir culpado. Afinal estava se informando. Nada mais justo!
Foi para a sala e se jogou no sofá. Era tudo do que ele precisava. Observou por um tempo a primeira página. Era incrível como não havia tantas diferenças das anteriores: os nomes ali descritos eram sim diferentes os fatos nem tanto e, no final, dava tudo na mesma. Irritou-se um pouco. “É sempre a mesma coisa. Dia após dia!”. Havia perdido a vontade de lê-lo. Mas ainda não queria voltar àquelas páginas intermináveis. Ainda não estava pronto. Pôs-se então a folhear o jornal. Acabaria ganhando alguns minutos. Folha após folha. Olhava de relance uma manchete aqui, outra acolá. De vez em quando se prendia a observar uma foto ou outra. E assim foi indo: jogava uma folha para um lado, outra para outro e elas foram se acumulando ao seu redor. Quando seus olhos quase não mais registravam o que passava a sua frente, deparou-se com seu horóscopo do dia. Ali na sua frente. Já que estava ali mesmo começou a ler em voz alta, com se tivesse alguém mais a sua volta, do jeito que as pessoas fazem quando estão tentando desvendar os mistérios contidos naquelas breves linhas: “O alinhamento dos planetas torna o dia turbulento para os nativos de Touro. Surpresas aguardam-o ao final do dia...”
Parou por ali. Não conseguiu continuar até o fim. Qualquer pessoa que escrevesse “aguardam-o” não seria capaz de ditar o futuro. Não o seu. Jogou o resto do jornal no chão. Para que mesmo foi ler aquilo? Não sabia. Provavelmente foi movido pelo desespero de fugir dos erros que o atormentavam no escritório. Mas parece que deles não escaparia tão cedo. “Dia turbulento”, balbuciou com desdém. Realmente. Ter de se deparar com tais monstruosidades durante todo o dia realmente o tornaria turbulento. E além do mais não acreditava em horóscopos. Prever o futuro pelo passado era inaceitável para ele. “Pegue, por exemplo, meu signo. A estrela mais brilhante da constelação de Touro é Aldebaran que se encontra a uma distância de 68 anos-luz da Terra. Não precisa ser nenhum físico ou coisa parecida para saber que leva um bocado de tempo para se percorrer tal distância. Assim, o que um astrólogo previu para os taurinos, hoje, por exemplo, é baseado em um feixe de luz emitido há..., sei lá... muito tempo atrás. E mesmo assim tenho de acreditar que esta luz do passado vai me dizer algo sobre meu futuro? É demais até mesmo pra mim!”, dizia sempre àqueles que se aventuravam em tentar convencê-lo.
Aquele fora o ponto final. Preferiria enfrentar os intermináveis erros que abandonara no escritório. Pelo menos era pago. E no final acabava por se divertir um pouco com os absurdos que encontrava. Publicam qualquer coisa hoje em dia. “Sem conteúdo ou perspectiva artística. Desde que venda, tudo bem!” Mas era seu emprego. O único que lhe ofereceram que pudesse trabalhar em casa. Não queria gente bisbilhotando sua vida enquanto trabalhava e talvez por isso não tivera muitas opções. Exigência sua que seu tio aceitara sem questionar. “Família tinha que servir pra algo...” Levantou-se. Olhou o amontoado de folhas de jornal. “O Cláudio depois pega. Ele vai adorar...”, pensou enquanto se dirigia ao escritório. Achava que pelo menos assim ele teria algo mais com o que se ocupar. E não ficaria a sua volta, fazendo perguntas intermináveis sobre tudo, tirando sua concentração. Poderia até parecer antipático de sua parte. Até que gostava de conversar com Cláudio, ou de ouvi-lo já que quando começava a falar não parava. Mas prezava muito seu trabalho. Era o único que tinha. E, além do mais, teria tempo à tarde para conversarem um pouco.

2 comments:

Anonymous said...

Ei,,,
olha eu aki d nvoo...
mto bom texto...
to adorando, ta me prendendo...o único problema é q naum consigo mais eesperar pra q algo d diferente aconteça...
hhehe
Abraço e fui

Anonymous said...

Muito bom, como sempre, Dri. Prende a atenção mesmo. Será q nao vai sair esse livro logo? =D
Bjoka