07.
Apenas suas correspondências. Fechou o portão. Caminhou em direção a sala, conferindo os remetentes. “Conta. Outra conta. Nossa.... uma conta....” divertia-se. Tudo normal como não haveria de ser. Foi quando notou um envelope azul no meio de tantos brancos. Olhou-o com cuidado. Sem remetente. Só seu endereço. Uma carta anônima? Suspense?? Claro que não. “Mamãe.... quanta originalidade...” sussurrou em tom de deboche. Fechou a porta. Jogou as demais cartas no aparador ao canto, em cima dos jornais antigos. Sentou-se no sofá e pôs-se a brincar com o envelope. Todo ano era a mesma coisa. Desde que completara quinze anos. Um cartão de alguma parte do mundo em um envelope colorido. China, Argentina, Áustria, Polônia, África do Sul.... Tinha todos guardados. E sempre a mesma frase “Felicidades. Mamãe e Papai”. Ficava imaginando se, algum dia, entenderiam que ele conhecia a caligrafia dos dois. “Pelo menos podiam se dar ao trabalho de escreverem eles mesmos....” falava para a sala vazia. “Façam suas apostas.... qual será o país desse ano? Japão? Chile? Camarões?” divertia-se ao rasgar o envelope. De repente parou. Calou-se. Atônito. Não acreditava no que via. Nada de cartão. Somente uma foto e um bilhete: “Feliz Aniversário”. “Finalmente mamãe... resolveu escrever....”
Havia tanto tempo que acreditava ter jogado aquela foto fora. Junho de 1997. Outra época.... Eduardo finalmente conseguiu vencer sua timidez e abriu seu coração para Anna. A bela Anna. Morena de olhos verdes.... Sorriso capaz de iluminar qualquer canto escuro de sua alma. Ela simplesmente era perfeita. Perfeita para ele. Já havia se preparado para um não quando surpreendeu-se com um beijo. Seu primeiro. Não sabia como reagir. Tudo parecia ter se encaixado em sua vida. Foram os dois melhores anos. Primeiro amor. Jovem. Inocente. Era dela. Isso com certeza. Vivia perguntando-a o que tinha visto nele. Era todo desajeitado. Tímido. Nem um pouco popular ou algo do tipo. Uma bagunça, literalmente falando. “Você é fofo, como diz o Leo. Tem os olhos mais lindos que já vi. E não falo da cor deles. São inocentes. Puros. Sinceros. Você é capaz de resolver o problema de todo mundo com a maior calma do mundo, mas fica todo perdido quando se trata de você. Não enxerga um palmo a sua frente. Faz a carinha mais engraçada quando tá tentando entender o que se passa. É capaz de discutir horas com qualquer um sobre qualquer assunto, mas levou quase um ano pra falar comigo. Ah.... e não posso esquecer que você fica todo sem graça quando escuta um elogio. E quando tá com vergonha, dá vontade de te levar pra casa.... Bobo eu vi você. E me apaixonei. Só isso!” E era sempre a mesma resposta. Foram tantas vezes que ela teve de repetir até que ele acreditasse.... Sabia que não viveria sem ela. E falava isso sempre. Gritava quando ela não acreditava, para todos escutarem. Passavam todas as horas do dia possíveis juntos. Sem ela, sentia-se sozinho, perdido.
Em seu aniversário de dezessetes anos, Anna finalmente teve o presente que tanto sonhava. Iria passar três meses em Paris. Para ela o dia mais feliz da sua vida, para Eduardo um provável pesadelo. Apesar de saber que se pedisse ela não iria, não poderia fazer isso. Teria que suportar. “Seriam só três meses....” Somente pediu uma coisa em troca. O dia que antecederia a viagem. Passariam todas as horas possíveis juntos. “Pra compensar três meses sem você...” disse com um jeito doce a Anna. Fizeram tudo juntos. Do café da manhã até o fim da festa de despedida que organizou para ela. E como parte do acordo, ele a acompanhou até em casa. Fizeram o trajeto mais longo possível para passarem mais tempo juntos. Observaram as estrelas, a lua.... Seu coração doía a cada minuto que terminava. Não dizia nada, entretanto. Não queria que esse último dia terminasse em lágrimas. A um quarteirão da casa dela, pensou em implorar para que ela não fosse. Não queria ficar sem ela. E talvez devesse tê-lo feito.... A poucos passos do portão principal um carro, um grito, um susto.... Somente isso. Uma eternidade em segundos até reagir. Estava bem. Ele estava. Anna encontrava-se no chão. Eduardo mal conseguiu gritar por ajuda e logo se sentou ao seu lado. Até hoje não entende o que aconteceu. Lembra-se do sangue. Do cheiro. Da textura. Da cor. Daqueles olhos verdes perdendo a luz. Do corpo sem movimento...
Não foi ao enterro. Não comia. Não saia do quarto. Trancou-se. Levaram-lhe o coração. Não sobrou muito. Só uma espera. Interminável....
“Obrigado, mamãe..... Original pelo menos uma vez.....”
Os minutos passavam. Ainda não acreditava. Não questionava muito. Real ou não, estava ali, nas suas mãos. Poderia ser apenas imaginação. Às vezes desprendia-se da realidade. Logo voltaria a si. Incrível como aprendera a controlar seu exterior quando queria. Nenhuma expressão denunciava o que se passava em sua mente. O caos em imagens, pensamentos, sentimentos... passados e presentes.... Comprimidos. Camas de hospitais. Olhares de reprovação e piedade. Isolamento.... Inconscientemente, seu polegar direito deslizava sobre o pulso esquerdo. Aparentemente tentando apagar o passado..... Podia sentir novamente sua pele se abrindo. O sangue pulsando de suas veias, fugindo pelo seu braço. A dor. A esperança.... Lentamente a foto escapava-lhe pelos dedos, apoiando-se sobre suas pernas. Assistindo, impassível a tudo. Imediatamente o polegar esquerdo começou a caminhar sobre o pulso direito. Novamente o passado ressurgia ante seus olhos.... E, finalmente, ambas as mãos caíram, estáticas, sobre a foto. A espera do tempo...
Eduardo quase não respirava. Seus olhos correriam a sala a procura de algo conhecido. Tentavam se entreter com outras imagens. Fugiam do que suas mãos revelaram. Encontrava-se perdido. Sem reação. Outra vez. Só havia uma coisa que poderia fazer naquele instante. Sabia disso. E o fez...
Apenas suas correspondências. Fechou o portão. Caminhou em direção a sala, conferindo os remetentes. “Conta. Outra conta. Nossa.... uma conta....” divertia-se. Tudo normal como não haveria de ser. Foi quando notou um envelope azul no meio de tantos brancos. Olhou-o com cuidado. Sem remetente. Só seu endereço. Uma carta anônima? Suspense?? Claro que não. “Mamãe.... quanta originalidade...” sussurrou em tom de deboche. Fechou a porta. Jogou as demais cartas no aparador ao canto, em cima dos jornais antigos. Sentou-se no sofá e pôs-se a brincar com o envelope. Todo ano era a mesma coisa. Desde que completara quinze anos. Um cartão de alguma parte do mundo em um envelope colorido. China, Argentina, Áustria, Polônia, África do Sul.... Tinha todos guardados. E sempre a mesma frase “Felicidades. Mamãe e Papai”. Ficava imaginando se, algum dia, entenderiam que ele conhecia a caligrafia dos dois. “Pelo menos podiam se dar ao trabalho de escreverem eles mesmos....” falava para a sala vazia. “Façam suas apostas.... qual será o país desse ano? Japão? Chile? Camarões?” divertia-se ao rasgar o envelope. De repente parou. Calou-se. Atônito. Não acreditava no que via. Nada de cartão. Somente uma foto e um bilhete: “Feliz Aniversário”. “Finalmente mamãe... resolveu escrever....”
Havia tanto tempo que acreditava ter jogado aquela foto fora. Junho de 1997. Outra época.... Eduardo finalmente conseguiu vencer sua timidez e abriu seu coração para Anna. A bela Anna. Morena de olhos verdes.... Sorriso capaz de iluminar qualquer canto escuro de sua alma. Ela simplesmente era perfeita. Perfeita para ele. Já havia se preparado para um não quando surpreendeu-se com um beijo. Seu primeiro. Não sabia como reagir. Tudo parecia ter se encaixado em sua vida. Foram os dois melhores anos. Primeiro amor. Jovem. Inocente. Era dela. Isso com certeza. Vivia perguntando-a o que tinha visto nele. Era todo desajeitado. Tímido. Nem um pouco popular ou algo do tipo. Uma bagunça, literalmente falando. “Você é fofo, como diz o Leo. Tem os olhos mais lindos que já vi. E não falo da cor deles. São inocentes. Puros. Sinceros. Você é capaz de resolver o problema de todo mundo com a maior calma do mundo, mas fica todo perdido quando se trata de você. Não enxerga um palmo a sua frente. Faz a carinha mais engraçada quando tá tentando entender o que se passa. É capaz de discutir horas com qualquer um sobre qualquer assunto, mas levou quase um ano pra falar comigo. Ah.... e não posso esquecer que você fica todo sem graça quando escuta um elogio. E quando tá com vergonha, dá vontade de te levar pra casa.... Bobo eu vi você. E me apaixonei. Só isso!” E era sempre a mesma resposta. Foram tantas vezes que ela teve de repetir até que ele acreditasse.... Sabia que não viveria sem ela. E falava isso sempre. Gritava quando ela não acreditava, para todos escutarem. Passavam todas as horas do dia possíveis juntos. Sem ela, sentia-se sozinho, perdido.
Em seu aniversário de dezessetes anos, Anna finalmente teve o presente que tanto sonhava. Iria passar três meses em Paris. Para ela o dia mais feliz da sua vida, para Eduardo um provável pesadelo. Apesar de saber que se pedisse ela não iria, não poderia fazer isso. Teria que suportar. “Seriam só três meses....” Somente pediu uma coisa em troca. O dia que antecederia a viagem. Passariam todas as horas possíveis juntos. “Pra compensar três meses sem você...” disse com um jeito doce a Anna. Fizeram tudo juntos. Do café da manhã até o fim da festa de despedida que organizou para ela. E como parte do acordo, ele a acompanhou até em casa. Fizeram o trajeto mais longo possível para passarem mais tempo juntos. Observaram as estrelas, a lua.... Seu coração doía a cada minuto que terminava. Não dizia nada, entretanto. Não queria que esse último dia terminasse em lágrimas. A um quarteirão da casa dela, pensou em implorar para que ela não fosse. Não queria ficar sem ela. E talvez devesse tê-lo feito.... A poucos passos do portão principal um carro, um grito, um susto.... Somente isso. Uma eternidade em segundos até reagir. Estava bem. Ele estava. Anna encontrava-se no chão. Eduardo mal conseguiu gritar por ajuda e logo se sentou ao seu lado. Até hoje não entende o que aconteceu. Lembra-se do sangue. Do cheiro. Da textura. Da cor. Daqueles olhos verdes perdendo a luz. Do corpo sem movimento...
Não foi ao enterro. Não comia. Não saia do quarto. Trancou-se. Levaram-lhe o coração. Não sobrou muito. Só uma espera. Interminável....
“Obrigado, mamãe..... Original pelo menos uma vez.....”
Os minutos passavam. Ainda não acreditava. Não questionava muito. Real ou não, estava ali, nas suas mãos. Poderia ser apenas imaginação. Às vezes desprendia-se da realidade. Logo voltaria a si. Incrível como aprendera a controlar seu exterior quando queria. Nenhuma expressão denunciava o que se passava em sua mente. O caos em imagens, pensamentos, sentimentos... passados e presentes.... Comprimidos. Camas de hospitais. Olhares de reprovação e piedade. Isolamento.... Inconscientemente, seu polegar direito deslizava sobre o pulso esquerdo. Aparentemente tentando apagar o passado..... Podia sentir novamente sua pele se abrindo. O sangue pulsando de suas veias, fugindo pelo seu braço. A dor. A esperança.... Lentamente a foto escapava-lhe pelos dedos, apoiando-se sobre suas pernas. Assistindo, impassível a tudo. Imediatamente o polegar esquerdo começou a caminhar sobre o pulso direito. Novamente o passado ressurgia ante seus olhos.... E, finalmente, ambas as mãos caíram, estáticas, sobre a foto. A espera do tempo...
Eduardo quase não respirava. Seus olhos correriam a sala a procura de algo conhecido. Tentavam se entreter com outras imagens. Fugiam do que suas mãos revelaram. Encontrava-se perdido. Sem reação. Outra vez. Só havia uma coisa que poderia fazer naquele instante. Sabia disso. E o fez...
1 comments:
Aleluia acontece algo...
huahuahau
Ponto positivo:
adorei a forma inesperada com que as coisas aconteceram, sem deixar pista alguma....
Ponto negativo:
demorou mto pra postar esse trecho novo...
kkkkkk
Abração e aguardo novas aventuras
d Eduardo e Mônica, ops, digo:
Eduardo e Claudio
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