Sunday, September 09, 2007

12.

Não tinha certeza se estava tão atrasado ou não. Preferira não olhar as horas no celular quando desceu do ônibus. Também não sabia se Eduardo notaria algo. Não havia muito que fazer agora... Ao cruzar a porta teria suas respostas. Chegou até a pensar em agir como se não houvesse saído. Provavelmente o encontraria imerso em suas palavras. Não teve tal sorte. Encontrou-o sentado na sala em uma cadeira antiga, que teimava em permanecer por ali, olhando diretamente a porta de entrada. “É melhor nem fazer contato visual” pensou Cláudio, tentando se divertir com a situação em que se encontrava. Somente lhe restava seguir e esperar ser repreendido. Passou pelo pequeno corredor. Chegou à sala. Deixou a mochila no sofá. Foi até a geladeira. Pegou a jarra de água. Observou a mesa – e lembrou que prometera limpá-la ao chegar... Respirou fundo. Brincou com o copo vazio. Depois com o mesmo, cheio. Mexeu nos farelos de pão. “Nada até agora... Provavelmente está esperando eu me esquecer para começar a reclamar sem parar na minha cabeça... Ah! E ele ainda se acha esperto...”
Percebeu que algo estava errado ao voltar à sala após ter limpado a cozinha – e passado quase meia hora acompanhando uma formiga perdida entre os azulejos na parede – e encontrá-lo do mesmo jeito. Sentou-se no sofá e começou a observá-lo. “Algo vai ter que denunciá-lo! Ele não pode ser capaz de esconder totalmente o que quer que seja que esteja acontecendo.” E não precisou de muito tempo para achar uma brecha.
Qualquer pessoa, mesmo que o conhecesse bem, certamente esperaria pela emboscada futura, um ataque certeiro quando menos se esperasse. Mas ninguém o olhava nos olhos. Ninguém olhava mais qualquer pessoa nos olhos, ainda mais se tratando dos olhos de Eduardo. Havia algo naquela imensidão azul que simplesmente desnorteava quem ousava encará-lo! De certa forma ia além da fisiologia, e isso assustava! E foram os olhos de Eduardo que sinalizaram algo. Declaradamente não eram mais os mesmos. Aquele azul que tanto encantava a Cláudio indiscutivelmente não mais representava Eduardo. Não mais por completo, como antes. Na verdade o representava em nada. Ou.... Talvez... Agora sim o demonstrava por completo.
Este era o momento que tanto procurava. E Cláudio iria aproveitá-lo por completo. Levantou-se e foi ziguezagueando pela sala, criando pretextos para avançar, mesmo que aos poucos. Entre uma parada e outra, deparou-se com um envelope perdido entre os jornais e almofadas. Infelizmente não conseguira identificar o remetente. E não se arriscaria a pegá-lo.
“Correspondências...” deixou escapar por entre os dentes, esperando alguma reação. Qualquer reação. Mais uma vez estranhou a inércia de Eduardo. Em qualquer outro dia ele já teria começado seu sermão de como Cláudio era curioso; de como de como ele deveria respeitar a privacidade alheia e pelo resto do dia escutaria a mesma coisa... Mas este silêncio... “Isto deve ser sério mesmo!” ecoava em sua mente.
Cláudio não tinha idéia de como administrar essa nova dinâmica.

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