Sunday, September 16, 2007

13.

Laura já havia terminado de anotar todos os dados necessários sobre os aspirantes a escritores. Não queria que nada a prendesse hoje. Sairia em seu horário normal. Nenhum minuto além. E iria direto para casa. Estava muito ansiosa. “Como foi deixar o louco do Cláudio me convencer a fazer isso?!?!” remoia a cada instante. Na verdade Cláudio era só alguém para não culpar-se no futuro. Seu maior medo era não pertencer. Sabia como Eduardo era. Corria o risco de ser completamente ignorada por ele. “Uma estranha, não passo de uma estranha” murmurava. Recolheu todos os envelopes e, alguns segundos depois, despejou-os em um canto da mesa de seu chefe.
Voltou a sua cadeira. E ali permaneceu, fitando um e outro que passavam, aproveitando aquele momento de calma para ponderar. Retirou de uma das gavetas um pequeno embrulho. Olhou-o fixamente. Escondida dentro do embrulho de cor neutra, enfeitado com um pequeno adesivo da loja onde, mais cedo, estivera, encontrava-se uma bela caneta tinteiro, daquelas que lembravam as usadas por escritores clássicos em suas lutas particulares com as palavras.
Ainda não estava segura o suficiente para entregá-la a Eduardo. Não sabia nada sobre aquele rapaz que via por alguns minutos, algumas vezes ao mês. O pouco que sabia sobre ele era como revisava os manuscritos à mão para depois corrigir o arquivo, se houvesse, no computador. E fazia questão de entregar a copia toda rabiscada. “Em um envelope furado e fechado por um barbante...” sorria. Era tão metódico nesse ponto. Laura se perguntava se Eduardo tinha alguma noção de, a não ser ela, ninguém mais ali apreciava esse pequeno gesto antiquado. “Provavelmente não estava nem um pouco interessado no que os outros achassem! Ele fazia por si...” concluía.
E essa autonomia, esse comportamento único a encantava ainda mais. A seus olhos, Eduardo era como um destes heróis de tragédias clássicas. Independente da época em que foram situados, continuavam a encantar, sendo fortes, mantendo um mistério pela solidão que os rodeia. Tão envoltos por suas trevas pessoais que não conseguiam enxergar aquela pessoa que tanto os observa. Que tanto espera por um olhar. Por uma palavra, a mais simples que fosse. “Ah! Pára de se parecer com uma dessas adolescentes sonhadoras... Você não tem mais idade para isso!!” se repreendia sempre que devaneios como esses tomavam sua mente.
Mas a caneta continuava ali, olhando-a, envolta em papel de embrulho neutro com a mesma etiqueta da loja onde fora comprada. Chegou a arriscar e perguntar a opinião de Cláudio. Era o único que poderia ajudá-la. Quando contou a ele o que pretendia comprar para Eduardo, escutou um discurso interminável. “Vai dar uma caneta para cara pelo qual está caidinha?!?! Isso é presente de amigo... Tem que ser mais ousada. Mostrar interesse, sabe...” e assim Cláudio continuou por horas e horas. Chegou até a contar sobre alguns dos presentes que dera a André quando ainda não namoravam. “Eu o vi e queria ele só pra mim!” repetia “Não ira perder tempo! Depois um mais esperto do que eu aparecia e pronto...” Cláudio só parecia esquecer que Eduardo não era André. Que Eduardo mal notava o mundo ao seu redor. E que, certamente, uma abordagem mais direta, além de não ser seu estilo, resultaria em um total desastre.
A caneta agora lhe parecia mais apropriada que antes. Preferiria que Eduardo a notasse, ao invés de anulá-la por completo. E ser amiga já seria uma grande promoção para quem não era nada na vida dele. Pegou o embrulho novamente. Colocou-o na gaveta, onde esperaria até que fosse embora, no final da tarde. Olhou as horas. Ainda tinha alguns minutos. Levantou-se e foi beber um copo de água e esperar os minutos passarem.

1 comments:

Rodrigo said...

como matar uma pessoa de curiosidade?
simples, basta dividir uma história em capítulos e ir publicando pouco a pouco... hehehehe

Adriano, essa história está ótima! Espero que vc continue =) essa festa de aniversário vai ser o acontecimento do ano!!!

abraço